segunda-feira, 20 de julho de 2015

Ministério #MIMIMI


por Lucas Schultz, com contribuições de Bruno Lorscheiter e Gustavo Ferelli.

(Aviso: só leia esse texto se for até o final. Caso contrário, não fará sentido. Quem avisa, amigo é.) 

Tem texto que dói para escrever. Este aqui é um. Demorei um bom tempo tendo conversas e mais conversas a respeito do assunto, lendo e digerindo informações. É difícil falar sobre igreja, sobre crente, sobre fiel, sobre evangélico. Esse assunto sempre tende à polêmica e fica difícil se posicionar quando a gente fala disso. Qualquer adjetivo vira uma bomba-relógio. Ainda assim, pretendo falar aqui sobre aquele mesmo duelo de sempre, nas igrejas: a constante rixa entre os crentes, que cobram cristianismo dos outros, e os outros, que cobram cristianismo dos crentes. Mas, mais do que isso, vou falar do extremismo que há no discurso dos críticos e dos criticados; aqueles que falam mal e aqueles que ouvem pior ainda. Mas, como muito mais vasto é o material falando acerca dos críticos, falarei mais sobre os criticados. Pelo que tenho visto, a intransigência parece abundar em ambos os lados. A coisa tá feia. De uns tempos pra cá, chegamos ao absurdo de discutirmos fé sem em nenhum momento falarmos disso. Vociferamos, acusamos, interrogamos, pisoteamos, caluniamos, tudo em defesa de nossas crenças. E quando digo nossas, é porque são nossas mesmo. Nossas e de mais ninguém. Mas vamos parar de enrolação e começar de uma vez, falando desse tal antagonismo. De mimimi, já chega o assunto.


De um lado, temos os moralistas, tradicionalistas que se permitiram chegar ao fundamentalismo (porque o tradicional só é feio de uns tempos pra cá). Acusadores. Rigoristas intransigentes, puristas por capricho. Perfeccionistas. Consumistas da salvação, especuladores do céu. Meteorologistas apocalípticos ambulantes, mais entusiasmados com blogs obscuros, teorias da conspiração, novas interpretações proféticas e a agenda papal do que com a pregação/vivência do evangelho. Faladeiros amaldiçoados pela própria boca (na qual não entrou imundície, só saiu). Amantes da forma em detrimento do conteúdo. Vigilantes da norma; militantes de uma guerra (santa) desnecessária. Mas que, no fundo (tenha fé: há que se chegar ao fundo), são gente de bem. Gente de bem que faz o mal, mas para o fim do bem (ai, gente, acho que ficou dúbio). Eles militam em favor dos bons costumes, pela reforma da saúde, pelo triunfo da verdade, da família tradicional-funcional, da propagação do evangelho, da moralidade e do reavivamento. E enquanto isso, espancam o semelhante isentos de peso na consciência. Inflados de orgulho e superioridade, ressuscitam o Tribunal da Santa Inquisição. Falam tanto de Deus, mas mais parecem o diabo (até os demônios creem). Zelam pelas Escrituras, enquanto propagam o ódio. Maquiavélicos por excelência. Elitistas. Preconceituosos. Alheios à diversidade. Incapazes de amar. Incapazes de conhecer a Deus.

Do outro lado, temos os aflitos. Os alvos das críticas, do ódio, da intolerância. Os outros. Pessoas que vivem de se machucar, ora pela indiferença dos outros para com suas lutas e suas dores, ora pela total falta de sensatez que permite a constante fiscalização da vida alheia. São aqueles que são podados, deixados de escanteio, colocados na geladeira (porque todo espaço, sobretudo o religioso, possui uma geladeira). Gente que volta e meia erra, e morre de medo de ser pega (pelos irmãos); pessoas que se sentem perdoadas por Deus, mas não pelos crentes. Cristãos que, por serem colocados à margem da igreja, acabam vivendo uma religião marginalizada, a tal da vida dupla. Não raramente, são pessoas que apenas tiveram a audácia (heresia!) de tentar mudar algo no programa eclesiástico, algum detalhe na ordem das coisas, nada que abalasse uma crença fundamental, ou mesmo o manual da igreja. Ai deles! Por que mudar algo que vem funcionando tão bem há tantos anos? Há casos, ainda, em que os aflitos são bebês na fé. Gente que atendeu ao chamado e veio tal qual estava, dilacerada pelo pecado e carente de amor. Engatinhando, eles vêm para a casa de Deus, mas são impedidos por serem escandalizadores em potencial. Seu visual é berrante, sua fala é inconveniente, seus trejeitos são polêmicos. São os barrados do baile, os desajustados, os censurados. Se quiserem entrar para a igreja tal, terão de se portar como membros da igreja tal. E, por isso, o que nem Deus pede que seja mudado, o homem pede (e pede para ontem!).

Agora, permita-me trazer ao palco do antagonismo uma outra triste realidade, e é dela que falarei mais demoradamente. Dentro desse último grupo, o grupo dos aflitos, há os coitados, mas há ainda os pseudo-coitados. Vitimistas. Gente que se dói, que se machuca demais. E acaba fazendo das suas mazelas um panfleto de ataque ao cristianismo. Quer revanche, quer direito de resposta. E, claro, quer chamar a atenção, fazendo das compreensíveis lágrimas, um melodrama da Televisa. Há quem prefira chamá-los de não-julguetes (certeza que você conhece algum desses leitores ávidos da Bíblia que – sempre – seja qual for o assunto da conversa, fica de prontidão, aguardando o melhor momento para recitar, com seriedade hospitalar, o “não julgueis” de Mateus 7:1/Lucas 6:37). Sensíveis, começam e terminam seus manifestos falando de amor, uma estratégia textual bastante conveniente e até mesmo eficaz. Falam de suas experiências frustrantes no espaço religioso em questão. Reconhecem que fazer generalização é errado, e então engatam a primeira marcha falando dos cristãos. (pausa para o bocejo) Com um discurso magoado e fatalista, apresentam a realidade que ninguém sabia até então, o furo jornalístico, a verdade que abalará os alicerces da sociedade: em templos e igrejas, o que menos se vê é solidariedade, compaixão e amor ao próximo. (!!!!!!!!!) Em seguida, falam de obras, do quanto foram perseguidos por pessoas que andavam na linha, que estavam em dia com os dogmas/crenças/regras/doutrinas. Para variar, sempre rolam expressões como “intolerância”, “dedo apontado”, “ódio”, “fofoca”, “atirar a primeira pedra”, “fariseus” e por aí vai. Daí em diante, começam as comparações entre Cristo e os cristãos, que supostamente são seus imitadores. E surge a lista de sofrimentos: as acusações constantes, os amigos que viraram as costas, a vergonha de sentar no banco da igreja... Fica evidente que um dos maiores problemas é a dificuldade que o crente tem com a liberdade alheia. O discurso é sempre o mesmo, porque é sempre o mesmo problema e sempre a mesma solução: sair da igreja. Sendo assim, começa um manifesto não mais sobre os erros da comunidade evangélica, mas sobre as razões que levaram o indivíduo a afastar-se da comunidade religiosa. Fala-se de um Jesus à parte da igreja, isolado das religiões, mas internalizado nos corações sinceros (por sinceros, entenda-se: alheios à religião institucionalizada). E prega-se, para fechar com chave de ouro, que o amor que não foi encontrado na igreja, foi encontrado no mundo.

O que me dói é que, quando vejo esses discursos acontecendo, o final parece sempre triste. Nenhuma dessas histórias tem um desfecho alegre, a despeito de as pessoas terminarem seus desabafos em tom de triunfo. Falam do que sentem, do que dói, do que machuca, e tudo termina em um “...e aí eu saí da igreja de uma vez por todas e agora estou bem. Grato.” Esse é o final feliz para a pessoa que escreve um texto desses no seu perfil do Facebook, ou discursa em uma mesa de bar? A liberdade e o amor (livre) que o mundo oferece verdadeiramente bastam para a realização eternal dessas pessoas? Mas o curioso, de verdade, é que há pesar em suas palavras. Fica parecendo que elas realmente sofrem por terem saído da igreja. Se assim não fosse, porque escreveriam de maneira tão magoada?

Outro ponto curioso é por que, em grande parte das vezes, quem sai da igreja, fica alheio a todo tipo de regra vinculada a ela? Se o motivo era exclusivamente a acusação, a falta de compaixão/relacionamento/solidariedade, ou a famigerada ausência de amor, por que abdicar dos preceitos, do viver segundo a norma bíblica? A Bíblia deixa de ser Bíblia quando o cristão falha? A pessoa só queria fazer parte da igreja para ser amada? Em nenhum momento ela se sentiu tentada a procurar uma outra denominação que servisse às suas necessidades de amor? Foi realmente acertada a escolha simplista de sair de uma vez por todas da igreja e fechar-se para toda e qualquer religião?

Eu sei que estou questionando demais, mas não é igualmente curioso que, não raramente, quem se constrange com a comunidade evangélica, abandona a fé e cai de cabeça nos prazeres? Seria um escape, um pretexto? Não quero ser intransigente, tampouco acusador, mas realmente fico pensando na relação que pode haver entre o hedonismo enrustido e esse desejo por libertação da igreja. Me parece bem mais interessante me afastar da igreja culpando os membros do que a mim mesmo. Se eu quisesse ser mais livre, sair sem ser questionado, já que tudo trata-se de julgamento, eu sairia desse jeito: falando muito de amor e liberdade, e jogando a culpa do meu sumiço nos meus irmãos.  

Outra coisa a se pensar é que o desamor oferecido por muitos irmãos da igreja só deixa claro aquilo de mais óbvio inerente a eles: sua humanidade. Eles erram, mesmo quando fazem de tudo para estar no caminho certo. Me parece ingênuo supor que há mais amor fora da igreja do que dentro dela, sendo que a falibilidade desse amor é fruto da humanidade, e, até onde se possa provar, somos todos humanos. A lógica que leva alguém a pensar que há mais amor lá fora deve qualificar amor como sendo a não-arbitrariedade, ou a ausência de acusação. Mas, convenhamos: acusação, intolerância, desamor, injúria, fofoca e o escambau, só se vê na igreja? Somente no ambiente religioso?

Por último, me questiono: se Jesus é unanimidade no que diz respeito ao amor, porque quem sai da igreja fala bem dEle, internaliza Ele na sua experiência sensorial de espiritualidade, e ainda assim consegue ficar alheio aos Seus ensinamentos? Ele apenas ensinou amor, e nada mais? Somente a história dEle, na Bíblia, é verdade? Sinto-me impelido a questionar o conhecimento dessas pessoas. Mas sinto-me ainda mais impelido a questionar sua vontade, sua preocupação em achar o caminho certo. E, por consequência, questiono seu respeito pela religião, mas mais ainda seu respeito pelo Deus da religião. Encher a boca para falar de Deus sem nem ao menos atentar aos Seus ensinos faz do discurso um amontoado de nada. Nesse mundo de inúmeras possibilidades argumentativas, muito se fala e pouco se faz.

Acho triste que o respeito que alguém tem por uma religião se fie no respeito que tem pelos religiosos. Mas acho ainda mais triste que a permanência ou não de alguém na igreja seja pautada pela religiosidade alheia. A amor que deveria manter alguém dentro da igreja deveria ser o mesmo amor que o trouxe: o de Cristo. Somente Ele ama em todo tempo, em toda situação, com toda a profundidade. O resto, é tentativa. Como cristãos, somos imitadores de Cristo, mas isso é muito mais sobre intenção do que sobre ação. A gente aspira amar como Ele, mas quem disse que conseguimos? Nosso maior ato de amor é apenas um ínfimo pálido exemplo, se comparado ao ato da Cruz. Comparar esses amores só deixa claro o quão falhos somos em nossas tentativas. Não sabemos amar. Por sinal, a convivência na igreja é um bom exercício de amor. Temos ali inúmeras possibilidades de interação com o próximo, lidando com suas particularidades, trabalhando em coletividade, mesmo na diversidade e buscando a uniformidade que vem exclusivamente pela contemplação do caráter de Cristo. A igreja é importante, pois é um espaço de convivência com Cristo e com nossos irmãos, visando o relacionamento, o descobrimento e desenvolvimento dos nossos dons, a uniformidade no propósito e o suporte solidário. Quando um cai, o outro ajuda a levantar. Isso é lindo em teoria, e maravilhoso quando em prática. Se sentimos que falharam conosco nesse aspecto, temos que atentar ao fato de que podemos muito bem ser a mudança que desejamos. Afinal, em uma comunidade evangélica, jamais seremos os únicos injustiçados. E quem não deu amor a nós ainda não deve ter conhecido o amor (Amor) de verdade. Qualquer um pode ser um instrumento para levar o amor a essa pessoa e, então, mudá-la. Uma vez me disseram que a igreja é como um hospital: cheia de doentes. Se não fosse assim, ela existiria para quê?

Enfim, chega de falação. Quanto aos discursos inflamados e antagônicos que abundam as timelines da vida, apesar de ser um qualquer, falho (feito você. Bjs), digo o seguinte: convém pensar. Seja qual for a sua posição, a de agressor, vítima ou vítima-agressora (que faz do vitimismo um ato de vilania), convém pensar e repensar. No nosso mundo personalista e humanizado de hoje, cada vez menos se olha o lado do outro, a não ser quando é para recriminar. Poucos enxergam que, na realidade, a natureza humana é podre, caída, tendenciosa à perversão e ponto final (em ambos os lados da discussão). O bizarro é que o único consenso nessa perene disputa entre críticos e criticados é que ambos esperam o melhor de seres humanos. Até seria engraçado, se não fosse triste.

Lamentavelmente, o que vemos hoje em dia não é a igreja como hospital e sim como loja de conveniência, igreja com religião “fast-food”, religião “sob medida”, afinal, “posso escolher aquela que melhor se enquadra com minha ‘fome’ e minha personalidade, não? Deus é um só, não importa onde/como você O adore, desde que O adore, certo?”. Cada um quer customizar o Evangelho (Jesus) conforme suas necessidades, sejam elas rigoristas ou liberais, amorosas ou negligentes.
Deixe eu dizer uma coisa. Não, melhor, deixe a Bíblia dizer no meu lugar:

“Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos. Você, porém, seja moderado em tudo, suporte os sofrimentos, faça a obra de um evangelista, cumpra plenamente seu ministério.” 2 Timóteo 4:3-5
Em todo caso, não adianta tentar saciar a sede tomando Coca se nosso corpo precisa é de água.