segunda-feira, 1 de junho de 2015

Carta aos que não sabem orar




Esta é uma carta endereçada a um amigo muito querido. Como você, leitor, também é um amigo (quem mais leria esse blog de audiência restrita? No mínimo, você é um conhecido meu), sinta-se à vontade para tomar esse texto para si.

Engenheiro Coelho, 1º de Junho de 2015.

Cara, eu não sei se você estava esperando por isso, mas não vou fazer um sermão.
Sei que se eu colocasse versos bíblicos ou indicações de leitura, você acharia bacana e tal, mas não iria atrás. Não significa que não pesquisei para escrever. Na real, isso aqui é fruto de umas várias conversas com pessoas espiritualmente conscientes/maduras, algumas leituras bíblicas, coisas bacanas que li e um tiquinho de Google (só para eu não me sentir tão des-descolado). Porém, sei que a despeito de ser seu amigo, serei sempre o seu pastor: aí vai um texto bíblico que resume tudo o que tenho a dizer: “pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes nos vossos prazeres”. Está em Tiago 4:3. Vamos falar de oração, então.

Eu sei que você está perdido, meu amigo. Também estive assim por um bom tempo: foi um saco. Eu sabia que havia chegado a um momento de decisão, na minha vida e precisava de direção divina. Porém, quando orava, parecia que a oração batia no teto e voltava para mim. Me sentia ridículo, um cristão incompetente (no meu caso, para piorar, sempre tem o agravante de eu fazer Teologia. Isso só torna meu papel de babaca ainda maior). Enfim, eu orava e não acontecia nada. Só rolava aquele eco, fora e dentro de mim. Sei bem o que você está passando. Mas não desista. Esse momento é bem didático, se você parar para pensar. É Deus mostrando a você o vácuo. Calma, não quer dizer que Ele esteja deixando você no vácuo, mas sim que você está deixando vocês dois no vácuo. É Ele mostrando a você como é ridículo fazer as coisas sozinho. E como é patética a vida sem a busca por respostas, sem essa transcendentalidade, essa grandeza que o espiritual, o sobrenatural, adiciona aos nossos dias banais. É Deus mostrando que dentro de você tem um tremendo buraco, e se somente as dúvidas são caos suficiente para que você deixe Ele preenchê-lo, será esse mesmo o caminho que Ele usará para chegar ao seu coração. Esse incômodo é para tirar você do cômodo. Para tirar o pó da sua fé, da sua vida. Agora você viu a necessidade. E necessidade é oportunidade.

Mãos à obra! Basicamente, uma vez que você pede para ouvir a voz de Deus, você precisa – no mínimo – já começar sua empreitada ciente, submisso ao jeito “único” divino de responder. Já comece sabendo, de cara, que provavelmente não vai ser do seu jeito. Já parou para pensar na possibilidade de você não saber nem mesmo pedir, que dirá receber? Por isso mesmo, Deus vai responder da melhor forma. Aceite, somente. Com isso em mente, o quanto você quer ouvi-lo? O quanto levará a sério o que Ele dirá? E até onde iria para obter suas tão necessárias respostas? Pense em tudo isso com cuidado e não ouse começar o que não vai terminar. 

Um pequeno lembrete. Depois de estar seguro quanto ao que deseja ouvir de Deus, esteja preparado para a possibilidade de as coisas saírem fora do esperado. Quando você pedir a Deus por um caminho seguro, ou perguntar o que Ele quer para sua vida, e Ele simplesmente responder apontando pecados que precisam ser exterminados, vai fazer o quê?  

Deus, historicamente, só revela a nós o que temos condições de compreender. Ou seja: para tomarmos uma decisão, sempre teremos o suficiente. Por isso, contente-se com o que lhe for apresentado a princípio. É o que você está apto a entender no momento. Mas Deus curte nosso aprimoramento espiritual e nos oferece alguns upgrades. É progressivo: quanto mais você quiser (de fato) ouvir, mais ouvirá. E quanto mais ouvir, mais estará apto a obter maiores respostas. Deus leva em conta o nosso ritmo. Porém, fique esperto: quanto mais a gente sabe da vontade de Deus, menos desculpas tem para fazer o que é errado. Saber é compromisso.
Para obter respostas divinas é preciso relacionar-se. É simples e óbvio: Deus muito provavelmente não falará contigo em voz alta. Por isso, se não será uma resposta explícita, audível, como você captará a “voz” divina caso não O conheça? Relacionamento íntimo com Deus, portanto, é uma bruta necessidade. E, pelo amor da Madre Teresa, não seja artificial. Sinceridade é o caminho da fidelidade. Seja transparente. Se estiver com nojo, raiva, medo de Deus, fale para Ele. E na hora de pedir, peça com gosto, com vontade. Seja específico e detalhista. Mostre a sua vontade e peça pela dele. Mas preciso repetir: seja sincero. Não me venha copiar oração de outros, muito menos bajular o céu. Se engana quem pensa que a Deus se engana.

Já estamos terminando (exercite sua paciência, cara. Afinal, com Deus, as respostas podem não ser rápidas). Para ouvir a voz de Deus, precisamos estar espiritualmente suscetíveis e conscientes. Há alguns caminhos para isso:
  • Oração (ore por si mesmo e peça oração intercessora);
  • Oração na madrugada (um ato que conduz à disciplina, além de ser esse um momento no qual você está com a mente mais limpa, arejada e tranquila. Acredite: funciona! E vamos combinar: é muito cool orar de madrugada. Tanto é que sempre desperta uma saudável inveja alheia).
  • Jejum (não se trata de um ato de penitência, ou de trocar favores com Deus passando fome. Em jejum, nossa mente funciona melhor. Aflora. Ainda mais no seu caso, que só come besteira, isso faz sentido. Experimente pesquisar sobre. Além disso, o jejum é uma baita atestação [para você mesmo, para Deus, e para que vê-lo jejuando] da sua vontade em entender a vontade divina. As mais profundas captações da vontade de Deus vêm em momentos de jejum e reflexão);
  • Jornadas de leitura bíblica (A vontade de Deus está na Bíblia. Peça a Ele que conduza sua leitura. Você achará os textos necessários ao seu crescimento. Esse processo desenvolve a comunhão e o intelecto);
  • Fuga do mal (nem fique argumentando ou racionalizando: fuja e pronto. Você sabe muito bem o que faz de errado e tem até uma certa ideia de como parar. Pare já. Essas nossas práticas erradas deixam a mente da gente opaca, confusa, turva. Peça a Deus que o ajude a filtrar o que lê, ouve, vê, fala, faz, pensa, planeja... Esteja limpo).
Por último (amém), meu amigo, seja persistente. Converta o tamanho da sua dúvida/necessidade no tamanho do seu esforço. Sem fé, a gente não tem como agradar a Deus. Busque e achará; peça e será dado; bata e será aberto. E não esqueça: entregue seu caminho todo ao Senhor, confie nEle e deixe tudo com Ele. Bora começar? Aguardo as novidades e bênçãos. E, sempre que precisar, conte comigo (desculpa, mas imaginei você e eu contando infinidades numéricas juntos. Foi engraçado, na minha cabeça).

Seu amigo, Lucas Schultz.