quarta-feira, 22 de abril de 2015

Fui chamado, e agora?


Por Albert Azevedo

Em tempos de crise e chamados escassos, vou compartilhar minha experiência pessoal de chamado. Meu propósito é apenas apresentar minha experiência, não definindo como padrão nem como exemplo, apenas mostrar o que vivi.
Tendo me formado na graduação em 2013 na 94ª Turma de teologia, ingressei na pós-graduação em teologia Bíblica em 2014. A princípio esperava que este diferencial fizesse alguma diferença quando chegasse ao final do ano... Infelizmente, estava um pouco equivocado.


Chegando ao tempo das entrevistas, contemplei preocupado a quantidade de teologandos por vagas. Não posso negar que a tentação da ocasião era ceder ao espírito de competição e concorrência. Certamente este não é o espírito correto de quem quer (ou sentiu-se chamado) trabalhar na obra de Deus, por isso, tive que lutar em oração para que Ele removesse de meu coração esse sentimento. Até que chegou o momento que descansei, confiando que Deus nunca me desampararia, porque Ele nunca me esquece.

“Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti”. Isaías 49:15

Passadas as entrevistas, a previsão não era das melhores. Em meu campo, haviam 6 candidatos para 2 vagas. A palavra do presidente era que em outubro receberíamos o “bendito telefonema”.
Confesso que é um fator probante avançar nos estudos sem uma perspectiva de futuro, pelo menos da maneira como havíamos esperado que fosse o desígnio de Deus para nós.  Porém, o alvo era terminar a pós-graduação (pelo menos as classes) o depois ficaria para depois.
 Chegou então o tal do mês de outubro. Percebia a ansiedade e preocupação nos rostos dos colegas, mas eu mesmo não podia fazer nada para ajudá-los porque estávamos todos no mesmo barco, só podíamos orar. Ficávamos sabendo de um ou outro que recebia chamado... não haviam muitas comemorações públicas justamente em respeito aos demais colegas não chamados.
A questão é que o mês chegou ao fim. E o meu telefone estava lá, com as chamadas de sempre, com a infeliz constatação de nenhuma chamada de um número desconhecido... O desapontamento tentou buscar lugar em meu coração. Porém, ele achou maior guarida na hora que fiquei sabendo que chegaram 3 chamados de meu campo. Num raciocínio pouco elaborado instantaneamente caiu a ficha: você não foi chamado!
“Tinham 2 vagas, 3 foram chamados... Pronto, já fizeram o esforço extra, 1 vaga a mais. Agora que não tem mais nada”... pensei.
Este foi um momento de provação.  Só quem viveu ou vive entenderá. E assim foi. O tempo continuou transcorrendo em suas rotinas de internato com os inúmeros requisitos do curso. Tentei me focar inteiramente nos estudos para esquecer a falta do chamado, mas, infelizmente isso afetou meu rendimento de empenho e esforço.
A questão é que o tempo continuou a passar. Chegando a dezembro, já estava pensando sobre o que faria no próximo ano. Os planos eram muitos, incluindo até ir para África auxiliar como missionário. Tinha passado por lutas espirituais, porém, após as lutas chegou a tão esperada “maturidade espiritual”. Aprendi a me conformar com a vontade de Deus sempre que eu colocasse algum assunto em suas mãos, porque afinal, como disse o Pr. Bruno, “De que adianta um Deus onisciente se for para fazer minha vontade?”
Chegando pelo meio de dezembro, recebo uma ligação de um número diferente, que não estava em minha agenda. Atendendo, fico mais curioso ao saber que do outro lado falava o Pr. Fernando. A princípio, não consegui raciocinar as coisas, até que ele se apresentou e falou: “Aqui é o secretário da Aplac”. Na hora, veio um frio na barriga... Em seguida ele falou: “Albert, seu chamado foi votado e aprovado. Você se apresenta da data” x” ano que vem”.
É claro que a conversa teve mais detalhes, estes porém, só Deus e os anjos irão saber...rs! Na hora não consegui acreditar. “Fui chamado, e agora?”
Um tempo depois do telefonema, recebo instruções de ir à sala do Pr. Emilson. Pela primeira vez em 5 anos de teologia, me dirigi a sala do diretor do curso, em uma tarde ensolarada e muito feliz para mim. A Ellen, sempre muito simpática, ameniza um pouco a situação com o seu jeito mais aberto. Confesso que sentia nervosismo porque era um passo crucial em minha história de vida (coisa que sentimos em momentos marcantes: primeiro beijo, primeiro vestibular, primeira prova de auto-escola... sempre as “primeiras” experiências).
Entrando na sala, Pr. Emilson em seu jeito costumeiro de ser, age da mesma maneira como o vemos nas capelas ou classes. Direto ao ponto, parabeniza-me pelo chamado, apresenta as partes burocráticas e explica alguns procedimentos. Ao final recebo uma pergunta: “Está feliz com o chamado?” Confesso que pelo fato de eu não ser muito efusivo e “descolado”, não transmitia muita emoção em meu semblante... acho que por isso ele me perguntou (rs). Mas estava sim feliz, contemplando cada segundo daquele momento tentando captar o máximo daquela experiência da minha história.
Após aqueles momentos, a instrução era fazer exames médicos e junto a isso enviar ao campo uma ficha de chamado escaneada aceitando o mesmo de maneira formal. Fim de ano, hora de voltar à Brasília. O sentimento era de gratidão e muita apreensão, porque afinal, a coisa estava ficando séria mesmo.
Todo o processo foi novidade, concílios, reuniões, instruções, apresentações, muitas mudanças, formalidades legais... mas pela graça de Deus, cheguei até aqui escrevendo agora do campo que hoje sirvo como pastor auxiliar. À você que me lê, digo que não sei como será a sua história, conheço apenas a minha e de alguns amigos. Porém, quero testemunhar que o “sonho de Deus” para mim foi maior. Quando cheguei em 2007 no internato, jamais poderia imaginar tudo que Deus faria em mim e como conduziria todas as coisas até aqui. Creio de todo meu coração neste pensamento do Salmista:

"Que preciosos para mim, ó Deus, são os Teus pensamentos! E como é grande a soma deles! Se os contasse, excedem os grãos de areia, contaria, contaria, sem jamais chegar ao fim". Salmos 139:17 e 18

Deus tem planos para nossa vida. Eles vão além de um chamado oficial... o Reino de Deus é maior que uma organização, cabe a cada um discernir sua vocação espiritual. Quando entregamos tudo a vontade de Deus, Ele conduz as coisas de modos que não compreendemos. Ainda que haja um aparente fracasso, na ótica de Deus pode existir uma bênção disfarçada em meio à provação.
Eu entendi que muito mais do que um chamado, era muito mais importante para mim aprender (até hoje) a estar com Deus, fazer disso um fim ao invés de um “meio”.  É mais maduro buscar a face de Deus do que esperar algo de suas mãos...

“A cada um que submete sua vontade à vontade do Infinito, para ser conduzido e ensinado por Deus, é prometido um constante desenvolvimento das coisas espirituais. Deus não estabelece limite algum para o avanço daqueles que são "cheios do conhecimento da Sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual". Col. 1:9.”  {Review and Herald, 4 de outubro de 1906}

O que importa mesmo é sermos instrumentos de salvação. Com o dom, no local e na oportunidade que tivermos. Espero que Deus o abençoe, o console e prospere o plano dEle em sua vida! Abraço, Pr (aspirante) Albert.