quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Entrevista: Pastor Ivan Saraiva


Nascido em Curitiba, formou-se em teologia em 1998. Graduou-se em Pedagogia pela UFPR em 2003. Foi professor de Bíblia e Capelão por 4 Anos na ASP. Pastor distrital na IASD Tingüi em Curitiba por 1 ano, por 3 anos IASD Central em Campo Grande - MS. Foi Evangelista da ASM por 1 ano e meio. Líder de Jovens da mesma por 6 meses. Passando então a ser Evangelista e apresentador do Programa Bíblia Fácil da TV Novo Tempo, onde desde 2009 assumiu a Gerência da Escola Bíblica da Rede. Em 2011 assume a direção e apresentação do Programa da Voz da Profecia e Está Escrito. É casado com Luciana, juntos tem 2 Filhos, Gabriela e Sofia.

Encontramos com o pastor Ivan no dia 3 de Janeiro de 2015 e ele gentilmente nos concedeu essa entrevista.


Teololife: Pastor, Quais matérias o sr mais gostou no curso de teologia?

Pr. Ivan Saraiva: Eu sempre gostei das matérias aplicadas. Eu sempre me encantei com a teologia sistemática, mas minha paixão sempre foram as matérias aplicadas Eu lembro que o prof Reinaldo Siqueira pediu pra fazer um pequeno tratado teológico sobre um capítulo de Daniel, e por sorteio fiquei com Daniel 2, e como eu sempre gostei do pr Siqueira eu disse: eu vou me dedicar e dar o meu melhor e eu fiz o meu melhor. E fiquei muito expectante com a nota porque eu sabia que eu havia feito o meu melhor e lembro que eu tirei um C menos e estava escrito “eu pedi um tratado teológico e não um sermão.” Então ali que eu descobri que eu não ia ser o teólogo, que meu papel não era esse, mas pensei: pelo menos eu sei fazer um sermão!”. (rs) Então eu sempre gostei mais das aplicadas, sempre me identifiquei mais. No teológico eu sempre fui um aluno mediano, nunca fui expoente em nenhuma matéria. Nunca fui um aluno ruim, mas também não fui expoente em nenhuma matéria
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T: Quais são os principais desafios de se trabalhar na Novo tempo?

IS: O desafio financeiro é um deles, nós não temos recursos suficientes pra fazer tudo aquilo que a gente gostaria. Você precisa fazer muito com pouco recurso, tem que ser muito criativo pra aquilo que você deseja fazer. Desafio de pessoal pois as vezes a gente não tem as pessoas capacitadas no nível que se precisaria e se tivéssemos não teríamos recursos pra poder contratá-las. Esse é uma das grandes dificuldades.

T: Como é o seu dia dia?

IS: Eu viajo 150 dias por ano, praticamente meio ano eu passo fora. Quando estou dentro, eu tenho meio ano presencial pra fazer o trabalho de um ano. Eu trabalho na Voz da Profecia e no Está Escrito. Então minha atividade é muito intensa. Eu hoje produzo 104 sermões no ano pra televisão. 150 pra rádio e 720 pra internet. 
"Eu hoje produzo 104 sermões no ano pra televisão, 150 pra rádio e 720 pra internet."
Quando eu estou lá na NT é um ritmo muito intenso de preparação e gravação. Muitas vezes eu entro no estúdio onde eu acabei de escrever o que eu vou falar dois minutos antes. O que é um nível muito intenso de atividade. Eu tenho uma boa equipe, Tem um senhor chamado Ailton Santana (que foi descoberto pelo pr Fenando Iglesias), muito consagrado, muito dedicado,  entende de Bíblia mais do que eu, foi muitos anos obreiro bíblico, ele faz pesquisas pra mim. Ele não escreve o que eu vou pregar porque eu não consigo pregar o que outro escreveu, mas ele me ajuda muito nas pesquisas. Eu tenho um produtor e um editor exclusivo pro Está Escrito (EE), uma secretária pra Voz da Profecia e pro EE que é a Eloá Godói que apresenta e tenho também amigos voluntários que ajudam no atendimento na internet, que dão estudos bíblicos. O EE movimenta mais de mil estudos bíblicos todos os meses. Então é um volume grande de pessoas estudando a bíblia só com o EE. Fora a Escola Bíblica (ali são centenas de milhares), mas ali no departamento nós não teríamos condições não fossem os voluntários. O sr Roberto é um indivíduo extraordinário que nos ajuda muito, e temos parceira com pessoas dedicadas no Brasil inteiro que nos ajudam e nos dão suporte pra realizar muitas coisas.

T: Porque o sr cursou pedagogia?

IS:Eu cursei pedagogia não por opção, mas por uma imposição. Eu sempre quis fazer filosófica, gosto de filosofia e acho que um dia vou fazer filosofia nem que seja depois da aposentadoria pois é uma paixão que eu tenho, eu gosto de estudar pessoas que são bem mais inteligentes que eu e me fazem crescer, eu gosto muito sobretudo dos filósofos pessimistas que, embora eu não concorde com eles na maioria das coisas, eles me estimulam a debater com eles, promover uma dialética com eles. Eu queria fazer filosofia, porém o meu departamental de educação (os meus primeiros quatro anos de ministério foram na área educacional) me disse que não me apoiaria a fazer filosofia, mas que se eu quisesse fazer pedagogia ele me apoiaria. Então entre não estudar e estudar eu preferi estudar, afinal 4 anos passam igual pra todo mundo. Me dediquei aqueles quatro anos, não me arrependo, foi muito bom e acredito que boa parte da minha didática dos meus sermões se dá também por conta da minha formação pedagógica.
"Acredito que boa parte da minha didática dos meus sermões se dá também por conta da minha formação pedagógica"
T: Como foi o seu trabalho na área educacional?

IS:Trabalhei quatro anos como professor de Bíblia e capelão. Fui ordenado ao ministério como como professor de bíblia e capelão. Eu tive o desejo de fazer teologia também em função da escola adventista. A escola adventista teve um papel fundamental na minha formação e na minha conversão.
"A escola adventista teve um papel fundamental na minha formação e na minha conversão"
Eu não nasci na igreja adventista embora tenha sempre estudado em escola adventista e acho que foi um manifesto muito bom para minha conversão e também pro estímulo pra eu fazer teologia então fui muito grato a Deus por ter o privilégio por um período do meu ministério conseguir retribuir um pouquinho a área educacional. É uma área que eu gosto muito, admiro e fui muito feliz sendo capelão e professor de Bíblia.

T: Qual a atividade que sr mais gostou de desempenhar no seu ministério?

IS:Eu gostei de tudo, menos de uma coisa. Eu gostei de tudo, de capelania, fui pastor de igreja dentro de favela, onde tinha que literalmente ligar a luz interna, baixar o vidro, desligar o farol e ser apresentado pro traficante, fui pastor de igreja mais rica, central de capital, sempre gostei de tudo o que eu fiz. Mas tem uma coisa que, não é que eu não gostei, mas eu descobri que não era pra mim que é ser departamental de jovens. 
"Não é que eu não gostei, mas eu descobri que não era pra mim"
Todo mundo me dizia que um dia eu seria departamental de jovem e acabou que eu fui por seis meses, mas descobri que pra isso é preciso um dom específico que eu não tenho esse dom. O departamento JA tem uma característica interessante: você é eleito para os jovens mas o carro chefe do departamento é os desbravadores. Eu nunca fui desbravador. Eu só sei dar o laço do cadarço. Só. (rs) Eu acho uma coisa importante, admiro quem gosta, quem ama esse ministério, mas eu sei que ele não é pra mim.

T: Quais são os riscos de ser um pastor “famoso”? tem algum risco nisso?

IS:Tem, dependendo da essência que há dentro de você. Sabe aquela história que o poder não corrompe, o poder apenas revela quem de fato o indivíduo era. Eu acho que é mais ou menos por aí. Por isso a Novo Tempo tem uma preocupação muito grande em chamar pastores para estarem ali de maneira efetiva, tanto o Está Escrito quanto a Voz da Profecia é uma preocupação da divisão. Com certeza existiam pregadores melhores, mais hábeis e experientes do que eu, mas quando a divisão nomeia alguém para uma posição como essa eles veem acredito que em primeiro lugar a essência do individuo. Se é alguém que vai “subir pra cabeça”, se vai ter orgulho, presunção, se ele vai se valer da posição que ele tem. Então é uma situação complicada porque você está numa exposição muito grande o tempo todo. Se um indivíduo tem uma tendência à vaidade ou a tendência de se achar melhor que os outros essa é uma função que ele não pode estar pois vai ser a destruição da vida dele, o assédio espiritual é muito grande. 
"Se um indivíduo tem uma tendência à vaidade ou a tendência de se achar melhor que os outros essa é uma função que ele não pode estar pois vai ser a destruição da vida dele, o assédio espiritual é muito grande."
Desses atividades de escrever, falar, aconselhar, viver. Você tem que tomar cuidado o tempo inteiro oferecem dinheiro pra você, é preciso tomar muito cuidado com isso. Tem de se ter uma postura irretocável em relação a isso. É preciso ter uma transparência absurda em tudo o que você faz. Oferecem muitos presentes, você precisa cuidar pra saber o que você pode aceitar e o que não pode. É uma situação bem delicada. A igreja se preocupa muito com essas funções de exposição pra que não seja mais tarde um momento de tristeza e de dissabor. Então risco tem, mas acho que você minimiza esses riscos com a pessoa que é escolhida, por isso a importância de começar bem pra terminar bem, mas os riscos são constantes.

T: O sr deve receber muitas críticas e elogios. Como o sr lida com as críticas?

IS: A minha postura é a minha simples o possível. Eu não me pauto nem por críticas nem por elogios. Porque o elogio pode ser enganoso ou verdadeiro, a crítica também. Então o que você faz: Quer elogiar? Elogia! Quer criticar? Pode criticar! A minha preocupação está em agradar a Deus. Por exemplo, eu preguei hoje. Teve gente que gostou e que não gostou, que concordou e que discordou. Então o que eu faço? Vou mudar pra agradar aqueles que não gostaram? Ou vou continuar para agradar aqueles que gostaram? Você não faz nem uma coisa nem outra, você ora a Deus, passa tempo com Jesus e ter a preocupação de estar agradando a Deus. Se você estiver agradando a Deus e desagradando cem por cento dos homens, você está certo.

T: Teve alguma crítica que já te abalou?

IS: Não. Até agora não. Já aconteceu de eu escrever um artigo no facebook e virem me xingando com palavrões que eu nem sabia que existiam. Isso, lógico, me entristece, quando alguém te xinga de maneira direta, quando a pessoa não te conhece e questiona publicamente o seu caráter, as suas intenções. Ninguém fica feliz com isso, mas nunca a ponto de abalar. Se uma crítica abala o indivíduo ele não pode entrar nessa profissão. E se um elogio mexe com ele, também não. A gente precisa focar em Cristo e perguntar: “Senhor, o que tu queres que eu faça”, Se for pra ir pra esquerda eu vou pra esquerda, se for pra direita, pra direita. Você tendo a convicção de que está pregando e fazendo a vontade de Deus, deixa elogiar, deixe criticar e segue em frente. Não se empolga com os elogios e nem se abala com as críticas. 

A minha preocupação sabe qual é? É que Deus escolheu Saul, mas Saul se desqualificou em determinado momento. Qualquer um de nós, qualquer pastor, qualquer teologando, qualquer indivíduo tem esse risco. Deus pode ter chamado um teologando e no meio do caminho Deus falar: “Eu não estou mais com você!”. Deus pode fazer isso comigo amanhã. Então o fato de Deus me usar em uma determinada situação não é garantia que ele vai me usar em todas. 

É diretamente proporcional à nossa consagração. Quando o indivíduo se afasta de Deus ou permite que essas tentações e complexidades da função minem, chega um momento que o Espírito Santo apela, apela e o indivíduo não aceita Deus pode dizer assim. Eu posso terminar o meu ministério como Paulo “combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé”, ou eu posso acabar como Saul onde Deus diz: Eu não estou com você, agora eu tenho outro. Então a gente precisa saber onde nós estamos nesse caminho.  Como vamos encerrar nossa carreira. Saul se matou. Temos de estar atentos o tempo inteiro porque o fato de Deus ter me chamado pra esse ministério não confirma esse ministério a todo instante. 
"O fato de Deus ter me chamado pra esse ministério não confirma esse ministério a todo instante."
É preciso estar com Ele a cada instante pra que ele direcione meus passos e mantenha viva a chama do Espírito Santo no meu coração. Porque o que acontece? Em algum momento você sai. E eu vou pra onde? Pra uma igreja, talvez volte pra capelania de uma escola, talvez eu vá pra algum departamento. Eu não sei pra onde eu vou. Agora eu tenho que fazer a minha atividade onde for, não importa o que eu for fazer, com a mesma paixão. Eu preciso ter isso, então todos nós que estamos envolvidos com a pregação do Evangelho precisa ter isso. Porque quando a Obra te põe num lugar que você gosta então ela é de Deus, quando ela te põe em um lugar que você não quer ela é dirigida por homens, então isso só demonstra a nossa tentativa de humanizar ainda mais aquilo que deveria ser mais celestial. 

Então precisamos estar focados, com garra, permanecer com Deus e onde ele colocar a gente a gente tem que ser feliz. Nem todos são Mark Finley, nem todos são Bullon, e um exército precisa ter todo tipo de gente. Nem todo mundo vai ter a liderança do Pator Erton. A gente fica olhando de boca aberta pensando: “que dom de liderança Deus deu para esse homem”. Nem todos tem esse dom. Alguns serão excelentes professores de Bíblia. E alí é o ministério dele. Ele deve marcar gerações ali. Outros serão capelões de hospital, outros distritais e outros serão uma benção em igreja pequena que se colocar em igreja grande não vai dar certo, ou se colocar o pastor de igreja grande em igreja pequena também não vai dar certo. 
"Deus tem espaço pra todos no seu corpo pra que essa diversidade alcance todos no menor tempo possível"
Deus tem espaço pra todos no seu corpo pra que essa diversidade alcance todos no menor tempo possível. A gente precisa ter isso no coração e Deus vai abençoar nosso ministério.