sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A camarotização da igreja


O "rei do camarote"
O tema de redação do vestibular da Fuvest esse ano foi a “camarotização”. Um trecho da questão proposta aos candidatos: “(...) redija uma dissertação em prosa, na qual você exponha seu ponto de vista sobre o tema ‘camarotização da sociedade brasileira: a segregação das classes sociais e a democracia’”. Imagino a cara de muitos alunos, implorando aos céus pelo Google interior que todos nós gostaríamos de ter.

A fatídica prova aconteceu no último domingo e, agora, convido você a comigo refletir sobre essa palavra bizarra: camarotização. Ok, se você tem um mínimo conhecimento de internet e é antenado, deve ter sido automaticamente linkado a um certo vídeo polêmico que surgiu na rede em 2013. O vídeo, cômico de tão ridículo - créditos à veja São Paulo - mostra um suposto “rei do camarote” refestelando-se em sua gloriosa rotina fútil e ostensiva, digna de quem vive de marcar presença em alas VIP de baladas, eventos, etc. Ele deixa aos cidadãos wébicos os 10 mandamentos da curtição da elite. O contexto já deixa implícito o que a expressão “camarotização” significa. Mas muitos dos nossos estudantes brasileiros, antenados, porém alienados, não conseguiram fazer o link tão óbvio: um presente dado às gerações Y e Z.

Na questão que motivou a redação, estava o seguinte comentário: "Os três primeiros textos aqui reproduzidos referem-se à ‘camarotização’ da sociedade - nome dado à tendência a manter segregados os diferentes estratos sociais". Embora o enunciado tenha dado essa canja, ainda assim a galera se perdeu no significado e acabou perdendo mesmo foi a redação. Eita juventude! Mas você é mais espertinho que eles, presumo. Vai entender o recado que deixarei aqui.

A camarotização da sociedade nada mais é, então, do que a crescente divisão social amparada principalmente no status, seja ele qual for. Ela é abrangente, revelando-se nos espaços privados de shows ou eventos quaisquer, assim como na segregação incompatível com o que se entende por ideal democrático de igualdade. É a cultura da divisão, das castas, mas num contexto quase sempre glamurizado pela lógica capitalista. É a cultura da separação. Você vê esse fenômeno acontecendo em bancos, lojas, shows, parques de diversão, estádios e aeroportos (e aeronaves, não esqueça) e nem percebe. Mas pode observá-lo também na escola, na rua, no clube e - tire as crianças da sala - na igreja.

Li um artigo de um certo estudado aí que assegurava que a camarotização, esse neologismo autoexplicativo, só acontece no âmbito social. Para ele, “(...) esta absurda separação não se dá por motivos religiosos, raciais, étnicos ou linguísticos, mas apenas por questões sociais”. Vê se pode! É óbvio que amargamos (ou desfrutamos, já que é relativo) tal fenômeno em variadas esferas. Tanto é que hoje falarei exclusivamente sobre a esfera religiosa (tipo espiritual, sabe?).

Nas paisagens de nossas igrejas (note que estou sendo o mais abrangente possível), não há espaços/áreas VIP. Porém, por mais serenos e singelos que sejam esses ecossistemas, funcionais em sua simplicidade, deles volta e meia emergem cristãos que juram ser VIP’s. Eles se sentem superiores, chamativos, proeminentes na coletividade que, espera-se, define uma igreja. Possuem os dons mais vistosos, os cargos mais vistosos, os conhecimentos mais vistosos, ou simplesmente a conduta, oferta, ou mesmo aparência mais vistosa. Há ainda os apelões. Estes, por não contentarem-se com o prestígio que já têm, ou simplesmente por não terem nada de imaterial a exibir, partem para a lógica mercantilista: ostentam, sem dó nem piedade, o carro vistoso, o cônjuge vistoso, as roupas vistosas. E, claro, andam em bandos. Agem com atitudes espetaculosas, mas só querem chamar atenção e nada mais. O cristão médio precisa olhar para eles, querer ser como eles, mas sem andar com eles. Porque eles são um grupo seleto, autossuficiente (uma organização discreta, com o perdão da expressão). Eles são os VIP’s.

Isso não é modinha. Desde antes de haver cristianismo, já era uma praga. Olhe, por exemplo, os fariseus (os “separados”). São um bom exemplo da atemporalidade dessa tendência separatista. Muitos deles perderam-se em seu zelo pela lei, envaidecendo-se pelo status de celebridades religiosas que tinham naqueles dias. Ótimos no externalizar da religião, mas deficientes no internalizar, acabaram sendo fatalmente identificados como hipócritas. Até hoje, são lembrados estritamente por isso e por quase nada mais.

Há os que levam a lógica da separação, algo inerente à santidade, ao extremo (da ignorância) e partem para um purismo que acaba por minar a lógica da salvação. Para eles, a salvação vem das obras, ainda que não assumam tal heresia. Tudo começa com algum ideal de purificação (“para melhorar nossa capacidade de interação com o divino”; “para entendermos a vontade de Deus”; “para termos maior disciplina”; “para limpar o corpo de dentro para fora”; “pois somos templo do Espírito Santo”). São geralmente boas iniciativas, anseios ilibados que, pouco a pouco, vão perdendo o foco, enfatizando o que o homem pode fazer por Deus, e não o contrário. Uma vez “purificados”, os concorrentes de Jesus, capazes - veja só - de viver como Ele viveu, passam seus dias separados em seus camarotes pré-céu, ostentando para si mesmos uma glória que não existe. E ainda acham tudo muito natural.

Sobre os perfeccionistas, acho pertinente opinar que sua chatice mais parece um grito de desespero, uma ânsia pelo alívio que a lei sem amor não consegue dar. A eles, creio eu, parece até razoável o escapismo de, vez ou outra, culpar alguém pelos próprios erros, ou quem sabe criticar o comportamento alheio. Só para desafogar. Talvez haja conforto para eles, quando encontram no outro certa identificação. E, de tão preocupados com a aparência sóbria e livre de erros que deveriam assumir, partem para um puritanismo cheio de acusação e, quem diria, até mesmo segregação. Fazem uso de um cetro de autoridade que não lhes é cabível. Começam a separar, feito dona de casa escolhendo feijão, os puros e os impuros, os santos e os profanos, os salvos e os perdidos. Eis aí uma das piores faces da camarotização.

Mas você pensa que é só entre os membros de igreja que essas coisas medonhas acontecem? HAUAHUAHAUA (rir em caps é coisa de quem aprecia uma farofa, além de ser algo que empobrece o texto. Entretanto, não achei melhor maneira de evidenciar quão ingênuo é pensar que o fenômeno descrito nesse texto afeta a membresia e só). O fato é que não é raro encontrar pastores que, em concílios, associações, reuniões, ou na comunidade mesmo, não resistem à tentação de ostentar, glamurizar, causar, abafar, entre outras maneiras equivocadas (verdadeiramente não sei como você costuma nomear as atitudes de um pseudo-VIP, mas creio que tenha entendido o que eu quis dizer). Engana-se quem pensa que elite, panelinha, conchavo e outros conceitos mais sejam incabíveis ao pastorado contemporâneo. Contudo, se isso faz doer o coração, acalme-se: ainda tem mais. O pior dos complexos de “vipismo” é aquele que faz a gente remexer na poltrona vendo o noticiário: a maldita carteirada. Não, não são apenas os policiais, políticos, juízes e por aí vai que abusam do poder que têm. Há pastor que, em determinadas situações desconhecidas do membro médio, sucumbe ante a tentação de utilizar as credenciais para obter favores, facilidades, tratamento VIP. Isso é raro? Pergunte a um pastor de confiança (humilde e desapegado, convém avisar). 

Aos estudantes de Teologia, fica a advertência: cuidado! Seu exemplo é o maior legado, a maior pregação, o maior ministério. 

Se somos cristãos, e isso invariavelmente esbarra na responsabilidade de tomarmos para nós mesmos o caráter de Cristo, convém pensarmos mais na opinião dEle sobre essa prática tão elitista. A segregação entre os cristãos (e entre qualquer grupo) não é plano de Deus. Na Bíblia, Deus não faz acepção de pessoas (At 10:34; Rm 2:11-16) e é revelado como um Ser imparcial (Dt 10:17). Em Tiago 2:1-9, numa mensagem que exalta o amor como expressão máxima do cristianismo, fica evidente o lembrete: “a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, é incompatível com atitudes de parcialidade em relação às pessoas (v. 1)”. Além disso, não deixa dúvidas: a camarotização é, sim, um pecado (v. 8 e 9). Acho curioso que seja a questão da perfeição o que nos desune, seja ela material ou imaterial, quando na realidade a Bíblia coloca-nos todos sob um mesmo nome: pecadores. Dê uma espiada em Romanos 3. Todos pecamos e carecemos da glória de Deus (v. 23). Caso não tenha ficado claro, a glória é dEle, e não nossa.

Por último, para fechar de vez a ala VIP, eis o exemplo de Paulo, em Gálatas 6:14: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo”.