segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Quando a oração de mãe muda nossa história

Por Albert Schmitke Azevedo

           Ás vezes, o chamado que recebemos de Deus vem com alguns detalhes a mais. Detalhes estes que vão além do nosso controle. Questões de nossa história que remontam a tempos que não tínhamos capacidade de decidir. Há exemplos destes na bíblia, em que personagens já eram “figurinhas marcadas” (Deus conhecia qual seria a vocação de suas vidas) para cumprir os propósitos de Deus, tais como Sansão (Jz 13:5), Jeremias (Jr 1:5), João Batista (Lc 1:13-17) e o próprio Cristo (Lc 1:30-33). Tudo bem, estes foram “chamados” antes de terem nascido, mas será que é diferente conosco teologandos? Talvez sim, ou, talvez não.

Alguns, porém, são dedicados a Deus por seus pais justamente no tempo em que são bebês. Não a dedicação normal que vemos na igreja, mas, em um pedido de livramento especial da parte de Deus visando que o bebê sirva aos propósitos de Deus.  Isto é interessante, pois, de alguma forma em que não interfira no livre-arbítrio, Deus faz com que aconteça da forma como foi prometido pelos pais. Deus fez assim com Moisés, Deus atendeu as orações de sua mãe para preservar-lhe a vida. Quando Joquebede sabendo que era chegado o tempo de Deus libertar Israel do Egito, pediu que Deus protegesse Moisés do decreto de morte aos bebês judeus. Ellen White diz: “As orações fervorosas da mãe haviam confiado seu filho ao cuidado de Deus, e anjos, invisíveis, pairavam por sobre seu humilde lugar de descanso” (...) “Deus tinha ouvido as orações da mãe, fora recompensada a sua fé”. (Patriarcas e Profetas, p. 243).

Imagem ilustrativa
Hoje vou contar minha história. Com quarenta dias de vida tive gripe, e por conta disso tive que ficar internado no Hospital Brasília (que “obviamente” está localizado em Brasília). Os médicos falavam que eu teria alta no próximo dia, mas, esse “próximo dia” nunca chegava. Minha querida mãe tinha a incumbência de fazer uma nebulização em mim a cada hora, passados três dias, ela desmaiou por causa do cansaço. Ela me disse que caiu na cama, eu de um lado e ela do outro no colchão. Um detalhe: impressiono-me muito com o amor de mãe. Mas, prossigamos.

Quando os médicos me deram alta, falaram que eu teria propensão a ter problemas pulmonares pelo fato de ter nascido pré-maturo (nasci com um pouco mais que oito meses, mas antes dos nove meses).




Após isto, quase todo mês, minha mãe me levava ao hospital porque eu chorava a noite toda. A minha barriga ficava dura e eu ficava com a respiração comprometida. Alguns pediatras acharam que era cólica. Cheguei até a tomar "gardenal" que, segundo minha mãe, é um remédio forte para um bebê tomar. Outros pediatras acharam que eu tinha asma e que não poderia conviver mais com tapetes, cortinas e animais. Uma verdadeira lista restritiva.

Passados alguns dias, minha mãe descobriu que a asma era algo hereditário. Pesquisando um pouco as raízes da família, descobriu que ninguém em nossa família, tanto por parte de pai como por parte de mãe, tinha este problema. Logo, minha mãe começou a desconfiar que não fosse asma, pois, de quem eu teria “herdado” isto? Ela sabia que eu tinha alguma coisa, mas não achava que fosse asma porque eu não melhorava com os remédios indicados.

Certo dia, meu pai que é pastor, recebeu o convite para o concílio da família pastoral em Brasília em 1993. Minha mãe, estando tão cansada por cuidar de mim nos períodos noturnos, quase não quis ir ao concílio.

Relutantemente, ela decidiu ir. Lá na programação espiritual, minha mãe orou para que Deus mostrasse qual era o verdadeiro problema de saúde que eu tinha, pois, nenhum médico conseguia descobrir realmente o que era para que, com um correto diagnóstico, fosse oferecido um prognóstico eficiente. Todos os remédios que eu tomava não faziam o efeito desejado de “curar”. Justamente porque eu não tinha os problemas para o qual eles foram feitos .

Naquela oração ela disse que, se Deus mostrasse o meu verdadeiro problema de saúde, ela dedicaria minha vida para ser pastor. Acabando o concílio, voltamos para casa. Chegando nela, como é costume de todos os bebês, minha fralda precisava ser trocada. Dentro da fralda, além daquilo que normalmente deveria estar lá, haviam (para sermos científicos) “parasitas”. Deus respondeu a oração sem demorar muito. O que não é regra nem exceção, pois, foi apenas a resposta que Deus quis dar às orações de minha mãe. 

Ao ver isto, ela ligou ao nosso médico de família falando da situação com este novo detalhe. Com este novo dado, o doutor receitou um remédio específico para o problema, um vermífugo. Após tomá-lo, passados alguns dias, não tive mais problemas. Nunca mais fiquei com a barriga dura nem com o peito ofegante. Os parasitas, por incrível que pareça, estavam afetando meu pulmão de bebê. O problema é que se Deus não tivesse feito isto, os médicos não teriam descoberto meu problema, logo, talvez eu não estivesse escrevendo este texto hoje.

O tempo passou e cresci, porém, nunca fiquei sabendo desta oração. Na verdade, ninguém sabia dela, apenas minha mãe, Deus e minha tia Edna - in memoriam, mãe do Lucas Azevedo. Na época, esta tia comentou com minha mãe que, “uma coisa desta que se pede para Deus é algo muito sério e importante”. Falou que “ela teria que cumprir com seu voto”.

Os anos se passaram, então em 2009 no meu último ano de Ensino Médio, ao sentir-me chamado, liguei para casa  para avisar que prestaria vestibular para teologia. No dia em que falei a notícia, minha mãe não conseguiu dormir, pois, segundo ela, passou a noite pensando e lembrando-se da história da “dedicação” de quando eu era bebê... Dias depois, já tendo feito o vestibular, conheci toda esta história que você acabou de ler. Quando eu a soube, fiquei impressionado!

Acho incrível, como Deus agiu e tem agido em minha vida. Minha mãe nunca me falou nada, nem meu pai nunca me disse que “queria que eu fizesse teologia”. Na verdade, em minha casa, cogitava-se o meu irmão mais velho para essa vocação. Apesar de minha mãe nunca ter me preparado de maneira aberta para ser pastor, agradeço a Deus pela sua fé, dedicação e amor com que me criou. Assim como meu pai também, que sempre buscou fazer mais do que o melhor.

Pai e mãe.

No final, o chamado de Deus foi maior (não que tenha sido fácil aceitá-lo, mas, isso fica para depois, pois, daria outro texto) e graças a Sua misericórdia em ter me preservado a vida enquanto bebê atendendo a oração da minha mãe, eu posso hoje concluir minha pós-graduação buscando seguir o Seu chamado. Quais serão os propósitos de Deus para minha vida daqui em diante (quem está se formando que entenda)? Eu não sei, porém, devo tudo a Ele.

Concluo citando o texto de Paulo aos Efésios que diz: “Àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o Seu poder que opera em nós, a Ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre, Amém”. (Ef 3:20-21)

Eu e minha querida mãe.