segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Sobre a Heresia do Chamado Irrecusável

Por André Urel




Por vezes tentei escapar desse texto encomendado. Por vezes tentei deixar de pensar no "e se". Por vezes tentei justificar minhas escolhas pelos bons frutos de minhas decisões.


Poucas coisas subjetivas são tão objetivizadas como o designado "chamado" para o ministério pastoral. Muitos dizem ter experiências incríveis, outros hiperbolizam qualquer casualidade no intuito de confirmar seu desejo pessoal, outros ainda, apenas aceitam um chamado que julgam ser silencioso. Se me perguntassem se já recebi o "chamado" sinto que simplesmente não saberia responder, mas ao procurar essa resposta, outra infinitamente maior encontrei:


Muitas vezes, por ignorância ou ingenuidade, reduzimos os propósitos de Deus a um plano unidimensional, progressivo e único, traçado sob medida para nós, ao qual chamamos de Sua "vontade". Em diversas circunstâncias, ao interpretar manifestações naturais e sobrenaturais que indicam essa suposta vontade, recusamos o direito de escolha e nos submetemos a ela, atribuindo consequentemente a Deus a responsabilidade  por qualquer que venha a ser a consequência desse ato de livre-arbítrio negado.

Me impressiona ver como esse raciocínio frágil e tão limitado é presente às portas da maioria dos que se julgam chamados e escolhidos para exercer o ministério pastoral.

Muitos têm aberto mão de sua liberdade na escolha profissional para agradar a família, outros optam por teologia pela estabilidade, mas nenhum desses têm posição mais equivocada e covarde do que aqueles que cursam pela convicção de terem sido cerceados de seu direito de escolha em função de uma determinação divina.

Essa predestinação imperativa, travestida de submissão em nome de "chamado", constituí uma das heresias mais aceitas, pouco questionadas e bem disseminadas no meio adventista.

Poucas coisas, no mundo espiritual, são tão claras e evidentes quanto o admirável respeito de Deus pelas decisões de todos nós. Toda a narrativa bíblica repetidamente demonstra a capacidade divina de constantemente reconfigurar a realidade de novas maneiras a fim de que Seu eterno propósito se cumpra sem violar nossa integridade de escolha.

Não creio em um Deus manipulador que barganha nossa felicidade em troca de nossa sujeição à Sua vontade ditatorial. Acredito num Deus vivo, soberano e que em Sua supremacia se move entre a permutação de todas as possibilidades, respeitando a variável da minha decisão, para realizar Sua orgânica vontade em todas as circunstâncias que eu O permitir.

Sobre o futuro, sobre as escolhas, sobre a decisão profissional: só sei que Deus respeita, nunca impõe; sei que Ele abençoa, empreende e se aventura com a gente. Sirvo a um Deus de múltiplos caminhos que sabe precisamente como estabelecer Seu propósito em cada uma de minhas voluntárias decisões.

Não cursei teologia, não sei como teria sido e sinceramente, como disse um amigo, não me importa saber. Sei que Deus está comigo, com Ele a vida tem sentido e independente dos caminhos que eu escolher, com Ele, sempre vai ter!