quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Parábolas modernas - A ficção que aponta pra realidade



“Uma grande nação é completamente destruída por um poder inimigo qual nunca se viu antes. Poucos são os sobreviventes e, em meio ao caos, três jovens, ainda inexperientes, tornam-se a única esperança que persiste. Contudo, a cada novo passo dado, percebe-se que tramas ainda mais complexas estão se desenvolvendo simultaneamente.”

Tal descrição pode dar margem para muitas perguntas e suposições. Porém, confesso que me impressionei quando, pela primeira vez, entrei em contato com essas palavras, escolhidas cautelosamente por um amigo após ter lido um esboço de um livro que está sendo desenvolvido. Mas, vamos por partes.





Meu nome é Lucas Fávero. Curso teologia desde 2013 na turma A. Em meio a colegas com as mais diversas formações e dotados de incríveis dons, sempre questionei-me sobre qual poderia ser minha função específica na pregação do evangelho. Confesso que até hoje não cheguei a uma resposta definitiva. Mas, em todas as vezes que lia o relato sobre a parábola dos talentos, ou ouvia uma pregação a esse respeito, sentia surgir dentro de mim uma dúvida que, de certa forma, incomodava: qual seria o dom que Deus havia me dado para utilizar em Sua obra?

A afinidade com as palavras e o desejo intenso de escrever acabaram por me nortear dentro dos primeiros semestres do curso e, por fim, decidi que já estava mais do que na hora de dar início a algo que realmente pudesse ser utilizado por Ele. Com a ajuda de colegas com maior experiência e aconselhando-me com pastores entendidos no assunto – sem nunca, claro, esquecer-me de suplicar pela guia do Senhor – comecei a compor uma narrativa que envolvesse vários aspectos um tanto quanto inusitados. A princípio, a ideia pareceu-me um pouco deslocada no conceito de pregação do evangelho. Mas, à medida que fui me relacionando com o material e, especialmente, entrando em contanto com um grupo muito especial de pessoas, percebi que talvez não estivesse andando às cegas.

Desde que comecei o curso, trabalho junto com rapazes na faixa de idade que vai desde os quinze até dezoito ou dezenove anos. Em meus diálogos com esses meninos, notei neles uma ânsia por saber mais sobre a Bíblia. Porém, por algum motivo, existia uma espécie de barreira que não era transposta e eles, na sua grande maioria, ficavam apenas na vontade. Desde então tenho aplicado meu projeto junto desses rapazes na tentativa de aproximá-los das Sagradas Escrituras e, para minha felicidade, tenho notado bons resultados. Mas gostaria de pontuar algumas coisas que acredito serem fundamentais. 

1) Esse trabalho não está sendo desenvolvido isoladamente. A estreita ligação que tenho conseguido estabelecer com a Bíblia é, talvez, o ponto que mais chame a atenção desses meninos. Em sua grande maioria, aqueles que leram a história que está sendo composta começaram a ver certa similaridade com fatos verdadeiramente vivenciados na narrativa bíblica e, curiosos pela veracidade ou não dos fatos, correm às Sagradas Escrituras para tirar suas dúvidas; 

2) a linguagem utilizada também facilita a compreensão, cativando desde o início a atenção de pessoas que não mantém uma comunhão diária; e 

3) em um mundo onde as narrativas que mais se destacam são, na verdade, abarcadas de terríveis erros e distorções teológicas que prejudicam àqueles que leem, tal projeto acaba surgindo como uma vertente que, mesmo  em um campo delicadamente complexo, oferta a possibilidade de ser uma ferramenta positiva.

A narrativa desenvolve-se baseada em alguns conceitos advindos da cultura judaica. Porém, desde o início torna-se claro que a história nada mais é que uma fantasia, e não um fato histórico. Alguns até mesmo levantam questionamentos sobre a validade de tal gênero no que se refere a princípios teológicos. Mas, ainda assim, é sempre bom relembrarmos a positiva visão que se desenvolve no entorno das sete crônicas compostas pelo renomado C. S. Lewis. Não reivindico dom similar à mim. Porém, em uma sociedade onde o jovem submerge cada vez mais em mundo de fantasia, procuro utilizar minha simpatia com a escrita para tentar criar uma ferramenta que alcance essas pessoas onde elas estão, trazendo-as para o que é certo. É importante lembramos que muitos métodos, que por várias gerações tiveram êxito – e ainda o tem com algumas pessoas – tornam-se obsoletos nos dias atuais. Não podemos tentar alcançar jovens pós-modernos com os mesmo instrumentos que eram utilizados a vinte ou trinta anos atrás. A forma de pensar não é a mesma. A essência sim!

Assim, vejo esse projeto como uma possibilidade no trabalho com os jovens. Não posso categorizar essa afirmação como completamente verdadeira e eficaz. Contudo, enquanto muitos pregam maravilhosamente bem e outros tanto cantam ao coração, utilizando positivamente os dons concedidos por Deus, acredito que escrever seja também uma ferramenta que deva ser usada não somente em meios acadêmicos, mas também na linguagem em que o povo, de uma forma geral, possa compreender e gostar. C. S. Lewis, quando compôs o mundo de Nárnia, buscava apresentar a Bíblia de uma forma mais simples para que qualquer pessoa compreendesse. As sete crônicas não eram, contudo, algo completo, mas que conduziam a uma coisa muito maior: a própria Bíblia. De forma similar busco compor uma história que, apesar de não ser real, categorizando-se como fantasia, aplique-se aos mesmos pontos. Não é uma ferramenta autossuficiente, mas que aponta para algo muito maior. Uma ilustração que pode ser lembrada é a do pastor que, conduzindo suas ovelhas, estende o cajado quando uma dessas cai em uma vala. O objetivo do cajado não é permanecer ali, mas alcançar a ovelha onde esta esteja e, assim, trazê-la para a superfície, onde pode encontrar plena segurança.

Confesso que tal proposta é, de certa forma, um pouco arriscada. O simples fato de ser uma pessoa me coloca em grande possibilidade de cometer terríveis erros. Mas – e esse é meu constante pedido à Deus – se nenhuma tentativa for feita, como podemos ter certeza que haverá fracasso ou sucesso? Se Ele nos concede dons é para que os utilizemos em Sua causa, aprimorando-os cada vez mais para que possamos, no fim, devolvê-los ainda maiores ao Senhor. Um professor de teologia repete muitas vezes a clássica frase que: "para que uma página seja escrita, é necessário que outras mil tenham sido lidas". Completo dizendo que, para que algo seja realmente bom, somente mil páginas não são suficiente.

"Para que uma página seja escrita, é necessário que outras mil tenham sido lidas"


Para finalizar, lembro-me agora de uma pergunta que por vezes ouço quando comento sobre esse projeto. É correto valer-se da ficção como uma ferramenta na obra de Deus? Sou apenas um teologando, com muitas coisas há aprender. Mas, em minha humilde opinião, não duvido que uma arma tão poderosa como essa – que tem, sim, sido utilizada catastroficamente por Satanás em sua obra de engano – possa ser aplicada pelo Senhor. Ele, que foi capaz de no passado falar até mesmo por meio de mulas, com certeza há de usar qualquer coisa para pregar Sua mensagem. Cabe a nós apenas permitir que Ele atue, e não que nossas vãs suposições atrapalhem Sua obra.