quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Nômade: A vida do pastor como gerúndio absoluto

por Lucas Schultz

"Essa vida é uma viagem, pena eu estar só de passagem."Paulo Leminski
Você já deve ter percebido que eu gosto de escrever sobre a minha namorada. Se não aprecia esse fato, sugiro gentilmente que vá pentear macacos. Acredite: eles são absolutamente penteáveis.
Estamos completando 50 meses de namoro (eita Jesus maravilhoso) e fazendo de tudo para que os próximos 50 sejam completos no matrimônio. Amo amar a ela. Mas hoje não vou falar de assuntos açucarados.

Semana passada, viajei a Jacareí (SP), onde minha querida mora, ajudá-la em sua primeira mudança (sozinha). Seus pais, com os quais ela morou a vida inteira, foram transferidos para Curitiba (PR). E ela, agora, iria morar sozinha.


Foi um recesso de dia das crianças bastante proveitoso. Deu pra namorar, secar as lágrimas nostálgicas dela, ser seu auxiliar de cozinha, dar risada, assistir “A Culpa é Das Estrelas”, ajudá-la no trabalho, entre outras atividades. Já que falei o nome do filme, me dou o direito de opinar sobre ele: tem meia dúzia de boas frases, mas é mais um filmeco adolescente, no estilo boy-meets-girl, só que revestido de melancolia (afinal, câncer é algo que mexe com todos nós), uma fotografia hipsterizada e trilha fofa. Ah, e o ator que faz o menino com câncer é muito, muito ruim. Eu e ela ficamos o tempo todo torcendo para que o personagem dele tivesse um fim trágico (desculpe a sinceridade). E o pior é que teve mesmo (spoiler é comigo mesmo). Eu e a Dani rimos. Mas confesso que rolou uma certa emoçãozinha também. Falei que o ator era ruim, mas em compensação, a atriz... Essa sim arrebentou: chorava com gosto. Pronto. Aqui está minha crítica. Já sou quase um Rubens Ewald Filho. Ou talvez um Marcelo Hessel mesmo, dada a minha chatice.

Prossigamos (você percebe a minha dificuldade em manter uma linha de raciocínio? É que eu assisti muito Pokémon, quando criança. Esse educativo desenho animado tinha muitos flashes, poderes espalhafatosos e novas espécies de pokémons [não eram 150, apenas? Me sinto traído], tudo isso piscando freneticamente na tela. O resultado é essa ansiedade digressiva).

Durante o recesso, fiquei hospedado na casa do Pr Laerte Lanza, que alugou a casa onde os pais daela moravam. Ela ainda estava acampada por lá, no segundo andar, pois ainda não podia fazer a mudança. Fiquei no térreo (protegemos nossa reputação). O Pr Lanza, um homem rechonchudo e muito bem humorado, dentre vários outros conselhos, me deixou digerindo essa frase: “essa é apenas a primeira mudança; a primeira de muitas que vocês ainda farão, a vida toda”. Isso me fez pensar.

A vida toda dela (filha de pastor por excelência) foi marcada por mudanças. Ela encarou as diversas fases da vida trocando de cenário. Minha querida tem um pouco de muitos sotaques, tem amigos em tudo que é canto, tem um álbum fotográfico sortido de paisagens, tem história pra contar. E tem um constante desapego – puro pragmatismo – que faz dela uma menina que sofre, mas aceita facilmente os desencontros que a vida proporciona. Ela chora, seca as lágrimas e faz as malas. Resignada.

Eu compartilharei uma vida com minha futura esposa. E alguns muitos desencontros. Assim que chegar a um lugar, farei de tudo para me adequar, absorver a nova realidade, mimetizar meu eu, integrando-me ao ecossistema novo. Mas depois de um tempo, mesmo contra minha vontade, terei de abrir mão de todo esse esforço, só pra mudar de ambiente e mais uma vez buscar uma estratégia, um jeito de me adequar. Muitos serão os lugares, as pessoas e os acenos de adeus. Melancólico? Sim, claro. Mas esperançoso, também. É dessa riqueza de interações que o pastor enche seu portfólio humano. Tudo isso confere maior alcance, maior preparo, maior resiliência. E todas as coisas cooperam para o bem dos pastores.

Há quem ache maléfico um estilo de vida nômade. “O que será de seus filhos?”, “Sua esposa não terá uma carreira? Ela será sempre uma sombra sua?”, “Você não pensa nos seus familiares, não?”, “Essa rotina sem chão ainda vai torná-lo impessoal”, dentre tantos outros questionamentos oportunos, porém descartáveis. A vida do pastor e de sua família é alicerçada na abnegação. De tudo eles abrem mão, basta precisar. Até da vida cotidiana (como a conhecemos). A quem não consegue entender isso e fica inconformado com a decisão (e abnegação) alheia, estendo a oportunidade: macacos permanecem à espera de quem os penteie.

Esse é um bom momento para meditar naquela bela música do Milton Nascimento com o Fernando Brant, “Encontros e Despedidas”. A vida do pastor é assim: muitos ois e variados tchaus. Tudo sem muito tempo para o deslumbramento, ou para o dramalhão. Não dá para parar, nem que seja para assimilar o momento. Só dá tempo para se mexer, correr e incorporar o novo. O resto... Bem, o resto é resto. 

Voltemos à mudança.

Eu sou uma toupeira! Com ajuda do Giovane Lanza e do Thales Zabel, dois queridos, desmontei o guarda-roupa (com uma certa dificuldade), carreguei móveis e coloquei tudo em um caminhão. Estava um dia pra lá de quente, daqueles em que o suor queima a pele. Mas foi tudo bem rápido: a Ela tem muita coisa, mas tudo coisa leve. Fizemos uma “formiguinha” (fulano A passa para fulano B, que alcança para fulano C, e assim vai) e o negócio rendeu. Me vi adulto, acompanhando a Dani na imobiliária, instalando as coisas no apê novo (minúsculo, bonito e iluminado, como deveria ser), falando com porteiro, com carregador... Foi bacana. Imaginei quantas vezes passarei por isso novamente. Mas, acima de tudo, com quem passarei por tudo isso. Eis o que mais importa. A companhia sempre vale mais do que a viagem (ai, como tô pseudointelectual).  
O Pr Lanza ainda vai ficar muito tempo na minha memória; um constante lembrete de como viverei. Sempre de malas: a serem feitas ou desfeitas. 

Pastores vivem num perpétuo gerúndio. Eles jamais param, sossegam, estacionam no tempo. Jamais se permitem estar no topo, no clímax, no fim da carreira. Eles sabem que o simples fato de haver necessidade de se ter pastores já evidencia que nada está encerrado e, portanto, há ainda coisas a se fazer. Ignorar essa urgência seria alienar-se, e isso – sim – seria abdicar da vida (eterna), deles e dos outros. Há sempre coisas novas a fazer, em novos locais, com novas pessoas e situações. Para o pastor, a vida terrena é altamente transitória, fluída conforme a necessidade. Tudo é passível de mudança, e nada por aqui é digno de apego. Só não seguem essa lógica as coisas celestiais. Somente elas são definitivas e dignas de real afeição.


Pastores vivem num perpétuo gerúndio. Eles e os atendentes de telemarketing.