quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A alternativa inquietante

Por Alex Galindo
Em memória de Alexandre Galindo


"Filho, aqui estão as chaves do carro. Mas se eu melhorar, você me devolva!"
Meu pai me disse isso um dia antes de partir. A médica sugeriu que nos despedíssemos pois ela aplicaria uma maior dose de morfina e ele provavelmente não despertaria mais desse último sono.


"Há apenas 3 coisas que podemos fazer em relação a morte: desejá-la, temê-la, ou ignorá-la. A 3ª alternativa que o mundo moderno chama 'saudável' é a a mais inquietante e precária de todas" C.S. Lewis - Cartas a uma senhora americana.



Esse diálogo ilustra bem isso. Ninguém quer lidar com a morte! Nem quem está partindo e nem os que ficam. É tabu falar sobre isso. Como se o simples falar sobre o tema "atraísse" a indesejada. Porém, ao se evitar o tema, muitos assuntos ficam em aberto, muitas questões não resolvidas e muitas palavras são ditas já tarde demais.

Quando ele recebeu o diagnóstico de câncer eu estava no cursinho. Então em uma conversa difícil com minha mãe decidi entrar na faculdade naquele mesmo mês. Era julho de 2007, me matriculei em Analise de Sistemas no UNASP São Paulo. Eu já trabalhava na área e não gostaria de ter problemas com o sábado.

Eu queria então poder trabalhar e estudar e não deixar minha mãe só. Sempre quis fazer teologia. Mas também em consideração a minha mãe que ficaria viúva e a meu pai que dizia que preferia ver o filho "dançando balet do que sendo pastor" (SIC) decidi adiar esse sonho.

Então tratei de me ocupar. Consegui um trabalho na PCA engenharia de Software, comecei a faculdade, era diretor associado do clube de jovens da minha igreja, diácono, professor da escola sabatina... Também comecei a namorar pois entendi que seria bom ter alguém ao meu lado nesse momento difícil.

Por uma "ironia" da vida, ficamos careca na mesma época. Eu quando fui aprovado na fuvest no fim daquele mesmo ano.

Pouco me envolvi na hospitalização do meu pai. Na verdade eu nada podia fazer. Em todas essas decisões buscava também trazer paz a ele. Ele poderia descansar um pouco mais tranqüilo sabendo que seu filho estava bem empregado, cursando um bom curso, namorando uma boa moça e que eu cuidaria de minha mãe.


Mas em todas essas ocupações acabei me ausentando dele. Não porque não fosse possível estar próximo, mas porque eu queria evitar o contato com aquela triste realidade.

Tivemos poucas conversas. Desde criança eu queria sempre conversar com ele, mas nem sempre ele estava com disposição. Ao se despedir de nós, ele nos disse: "eu fiz o melhor que pude".


Mas nesse momento final de sua vida eu gostaria de ter feito por ele o que ele não fez por mim: Estar presente ainda que sem disposição. Eu reagi da forma que ele comigo agia. Não fui além. E disso, me arrependo. Me faltou maturidade na época para compreender que a depressão e distimia de meu pai, durante toda minha infância, o impedia de ter humor suficiente até para brincar com seu amado e saudável filho.


O que mais me incomodava era a falta de esperança. Meu pai tinha uma aversão profunda à religião e à fé. Para nós, crentes, a morte de um crente é apenas uma breve ausência até a volta de Cristo, conforme testificam as Escrituras:
"Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e com ele, aqueles que nele dormiram. Dizemos a vocês, pela palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, certamente não precederemos os que dormem. Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que estivermos vivos seremos arrebatados com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre. Consolem-se uns aos outros com essas palavras.
(1 Tessalonicenses, 4:14-18)

Ele, porém, não cria. E não queria crer. E isso doía profundamente em meu coração. O consolo que minha fé hoje me dá é que ele já não sofre mais. Não está num inferno de fogo ardente por toda a eternidade. Os mortos, crentes e descrentes, estão num estado de inconsciência, conforme também nos ensina a Bíblia:
"O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura , para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria"
(Eclesiástes, 9)

Depois que ele faleceu eu tive a oportunidade de realizar várias escolas Cristãs de Férias. E as fiz em sua memória. Sim, para a glória de Deus primeiramente, mas em memória do Alexandre também. Pois alguma coisa em sua vida, talvez na infância, criou uma profunda aversão nele quanto às questões da fé. Esse tema era tão tabu que o simples mencionar o fazia ficar irritado.


A minha homenagem a ele foi tentar criar desde cedo uma boa impressão da fé nos corações dessas crianças. Eu queria mostrar para aqueles pequenos quão divertida a igreja pode ser, quão inteligente é a nossa fé e quanta alegria ela nos traz!

Ao fazer para elas eu fazia para ele. Eu via naquelas crianças pequenos Alexandres ainda dispostos a ouvir e a crer.



O meu intuito é que, tendo uma boa experiência de fé, pudessem passar pela vida com esperança, significado e propósito. Que quando fossem mais velhos se lembrassem que tem um Melhor Amigo que nunca as desampara.


Dessa forma eu procuro honrar o nome de meus amados pais, o Pai celeste e o Alexandre.

Acredito que essa seja a melhor maneira de encarar a morte: trabalhar pela vida, pela nova vida.

"E ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou."
(Apocalipse, 21:4)