segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Irrigando Desertos - O Professor Adventista


Professor Didio

Pois, para cada aluno que precisa ser resguardado de um leve excesso de sensibilidade, existem três que precisam ser despertados do sono da fria vulgaridade. O dever do educador moderno não é o de derrubar florestas, mas o de irrigar desertos. A defesa adequada contra os sentimentos falsos é inculcar os sentimentos corretos. Ao sufocar a sensibilidade dos nossos alunos, apenas conseguiremos transformá-los em presas mais fáceis para o ataque do propagandista. Pois a natureza agredida há de se vingar, e um coração duro não é uma proteção infalível contra um miolo mole. (C. S Lewis, A abolição do homem, pág. 9)

A felicidade está diretamente ligada a quanto útil a pessoa se sente no contexto que está inserida. Em outras palavras, quanto mais inútil, mais infeliz. Ser necessário, eis o segredo. Quando pensamos em felicidade, nossa mente nos transporta a um ideal futuro, ou a memórias douradas. Praia pra criança, netos pra vovó, jovens pra igreja, noiva pro noivo, gol pra torcida, alunos para o professor, coisas que produzem memórias fantásticas em pessoas comuns. Cada uma carrega grande grau de identidade e forma os indivíduos que somos hoje. Tá bom, mas aonde quero chegar? Tudo isso para dizer que essas horas douradas, aconteceram na Rua Taguá, Liberdade, São Paulo. Aos vinte anos iniciei minha carreira de professor, e nunca me senti tão útil na vida.



Professor com alunos do Ensino fundamental
do Colégio Adventista da Liberdade

No começo eram dezoito aulas por semana, todas de História para o ensino fundamental II. Que crianças! Que incríveis! Admito. É muito difícil descrever esses dias. Você passa muito tempo na igreja, se esforçando para criar pontos de contato com pessoas que não conhecem a Jesus. São acampamentos, cultos, evangelismos, tudo para mostrar a realidade do Reino. De repente, num saltar do ônibus, encontro milhares de jovens, crianças e adolescentes, que muitas vezes vivem uma realidade muito triste, ansiosos, sem saber, pelo Reino. Ok. Depois de um ano trabalhando com os pequenos, o Colégio me confia aulas no Ensino Médio. E é agora que o bicho pega. Terceirão, cem alunos na sala. Vestibular, igrejas, namoros, aquela fase em que a vida parece de verdade. Eu era bem jovem, eles também. Difícil, mas produtiva relação. Naturalmente, pela dinâmica das aulas e pela confiança adquirida, não foi complicada a aproximação professor-aluno. Posso admitir que boa parte dos meus sinceros amigos, foram alunos. Criamos uma espécie de irmandade. Uhul!

Quem pode deter a alegria do professor ao entrar na sala? Quem pode te deter, estimado professor? Aquela classe, que se gravada, se enquadraria perfeitamente numa formação de quadrilha? Aquele aluno, mal-educado que faz uma cara deliciosa de nojo, quando você pede pra sair do chão, jogar o chiclete e parar de falar. Ou quando você separa uma briga de mentira, que só serve pra atrasar o tempo? Ou quando a criatura fala, fala, fala, e na prova desenha o bob esponja cantarolando na fenda do biquíni? Nada, professor. Nada pode te deter. Pois só Deus sabe a alegria de recuperar um iniciado em drogas. De vê-los orando, louvando, e querendo o bem. De vê-los entender Jesus, e a igreja.

Não há NESSA VIDA coisa melhor...
legendas são desnecessárias. Amo meus pequenos, cara!!!



Quem diria que por detrás dos uniformes, meninos e meninas vivem desertos cruéis? Quem diria que os problemas não são só de adolescentes? Que enfrentam coisas de gente grande. Que eles querem uma resposta. Que eles querem encontrar o aquilo que conhecemos. Muitas vezes o profissionalismo, a vida difícil do professor, fazem calar nossa primeira tarefa: a educação para a Vida e cerram nossos olhos pra o que verdadeiramente interessa.

O Didio super-útil começa na reunião de pais. Muitas vezes a vida estudantil dos alunos era “facilmente resolvida”. Criar laços; conversar; encontrar um caminho; parece exagero, mas as pessoas buscam serem ouvidas. E seu trabalho é esse, ficar lá ouvindo, ouvindo, ouvindo, e sem perceber as pessoas saem melhores do que entraram. Você encontra pessoas sedentas. A todo o momento elas te cercam.

Muitos projetos brotam na mente daqueles que se prestam à eternidade. Sendo bem sincero, as capelas não são suficientes para aliviar essa tensão que o estudante encontra dentro da escola. Assim como o sermão, e tão somente o sermão, não é suficiente para o cristão convicto. Por que não pensar em projetos mais consistentes? Com toda cautela exigida, com os detalhes observados, a escola é uma potência ainda inexplorada para o evangelismo. Famílias e alunos carecem daquilo que oferecemos.

"O amor é necessariamente livre.
Livres para escolher o certo. O certo para sorrir de verdade."

Prova disso é que, em meio às aulas, percebi forte movimentação de um grupo de estudantes. E isso se estendeu nos recreios, salas, pós-aulas, e transformação de “meninos maus” em anjos. Ué? Que diabos está acontecendo? Investigo, e pronto. Uma vertente animada, e com energia sem-fim de uma outra igreja, criava raiz no colégio. Era sensível o crescimento dessa raiz. Muitos estavam indo aos seus acampamentos, pequenos grupos e tudo o que nós, oficialmente não produzíamos. Formatura do Ensino Médio, de 150 alunos, uma imensa representação de 10 pessoas se comprometem ao tão sonhado nordeste brasileiro. Acampamento dessa igreja, mais de 50.

O que fazer?  Imediatamente, sem pensar duas vezes preparo uma circular. Apresento para a orientadora, que não quer se envolver com a coisa. Um acampamento da igreja, para alunos da escola adventista. Ótimo, apoio da escola, mas sem envolvimento oficial. Lançada a circular. Naquele ano, em uma semana estávamos no “Acampamento UP- você nas alturas”. Mais de cinquenta jovens do terceiro ensino médio choravam ao redor da fogueira, acreditando que a escola poderia oferecer o diferencial que se propunha. O acampamento foi sigiloso para a maioria dos funcionários e professores. Quando ficaram sabendo, foi um estouro. Todos, depois de quinze, vinte anos se serviço à educação adventista animavam-se experimentando, ainda que parcialmente, a grandeza de sua função.

Acampamento UP
São contos pequenos de coisas grandes, douradas pra mim. Como na igreja, as pessoas seriam mais felizes se soubessem quem são de verdade. Sem demagogia, sem uma imagem virtual pintada no dia do professor: o educador é um herói. No cenário nacional, sem fazer mais do que lhe é pedido, o professor já é em si a parte boa de um mundo escuro. O professor adventista é a união do melhor do mundo, com o melhor da igreja. Que ao encontrar um pequeno atordoado, um jovem desmiolado, um deserto, o professor não queria estender o mal vivido da escola para fora. Que a escola plante florestas nos desertos que se matriculam ano após ano. Que até a Sua volta, eles, os professores adventistas, saibam disso: não são apenas professores, mas agentes diretos do Reino; que a sua importância não conhece o fim, e são muito mais do que pensam, principalmente para Cristo – nosso Professor.

Para os fins de recreação aos estudantes, os melhores resultados se alcançarão pela cooperação pessoal do professor. O verdadeiro professor pode comunicar a seus discípulos poucos benefícios tão valiosos como o de sua própria companhia. É um fato, relativamente a homens e mulheres, que só os podemos compreender quando chegamos em contato com eles pela simpatia; e quanto mais não se dá isto em se tratando de jovens e crianças! E temos necessidade de os compreender a fim de mais eficazmente beneficiá-los. Para fortalecer os laços de simpatia entre professor e estudante, poucos meios há que façam tanto como a associação agradável entre eles fora da sala de aula. Nalgumas escolas o professor está sempre com seus alunos nas horas de recreio. Associa-se-lhes em seus empenhos, acompanha-os em suas excursões, e parece identificar-se com eles. Muito bem iriam nossas escolas se esta prática fosse mais geralmente seguida. O sacrifício que se exigiria do professor seria grande, mas ele recolheria uma recompensa preciosa. Ellen G. White - Educação Pag 212.


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