domingo, 14 de setembro de 2014

Fotos, filtros e memória: como lidamos com o passado que nos condena?



(aviso ao leitor: esse texto possui muita digressão. Digressão é tipo quando sua avó vai contar uma história e, no meio do caminho, começa a contar vários outros trechos, recortes de outras tantas histórias – veja bem, sua avó é velha, deve ter história feito a Bíblia – e aí você se perde todo. Sua avó, por mais genial que seja em seus tantos anos de existência e vasto acúmulo sapiencial, não nota que sai do assunto sempre que conversa, mas nem por isso a história fica sem final [na maioria dos casos]. Tudo acaba bem. Que saudade da minha falecida avó. Ela era muito boa na cozinha, sabia usar o cominho a seu favor. O feijão era uma maravilha. O guisado, então? De comer de joelhos. Pronto. Isso é digressão. Na verdade, esse parêntese inteiro foi meio que uma digressão. Que pena que você perdeu seu precioso tempo num parágrafo inchado com pura irrelevância. Enquanto você lê isso, do outro lado do mundo, um asiático estuda. Coisas da vida)

Com uma boa dose de filtros, correções, desfoques e afins, qualquer um fica bonito. E saudável, rico, descolado, cheio de atitude. A vida da gente (convenhamos, uma enorme sucessão de dias simplesmente ok, com tarefas cumpridas e certa indisposição) encontra na web a chance de redenção. Se você tem uma câmera, então, meu pai, você tem tudo na vida (virtual). Na internet, todo mundo pode ser mais feliz. Tudo é editável; o que não interessa sai fora. E fica tudo colorido, bonito, curtido. Pobre daquele que não conheceu a infinidade de recursos que as redes sociais oferecem. Deve ser uma pessoa muito infeliz.





Esses nossos dias me fazem pensar. Se você pegar o Instagram e vê-lo com um pingo de criticidade, vai notar que há um certo saudosismo exagerado nas fotos. Os usuários tiram boas fotos, mas – cuidadosamente – as estragam. Jogam os mais ridículos filtros, pra dar aquela cara vintage (tem uns que simulam lomografia, tem uns que estragam os cantos, uns que tiram o foco, uns que escurecem as bordas, uns que simulam lens flare, e uns outros aí que só servem para mostrar o mau gosto do usuário, mesmo).


            A moda é fingir história. Você finge que é velho, que tem muito a contar. Tenta tornar estética (mas, acima de tudo, memorável) a mais banal das ocasiões. Finge que seus momentos foram bem mais legais e ensolarados do que eles foram de fato. Como se eles fossem eternizáveis fragmentos de um passado que, mesmo sendo pra lá de instantâneo, deixou saudades. Um saudosismo forçado, modismo de uma comunidade que jamais soube, na prática, o que é torcer para uma foto sair (da câmera) com qualidade, sem canto queimado, sem desfoque, sem porcaria nenhuma a não ser um bom momento intacto, tal qual foi aos olhos. O resto, toda a carga emocional, ficava por conta da memória, do imaginário. Por falar em memórias, nessa época, era assim que elas eram: inesquecíveis. De fato, inesquecíveis. E inesquecíveis justamente porque as pessoas não podiam esquecê-las.

Mas tem coisa que a gente quer esquecer. Coisa que fica fora de rede social. Coisa que a gente faz de tudo pra sepultar em algum ponto inacessível da própria memória. E que a gente morre de medo de reencontrar. E isso é comum à toda geração: seus avós e pais também passam por isso, por esse pavor do passado. É que tem certos detalhes que não convém, né? Sei lá, vai que alguém descobre? Vai que alguém ainda lembra? Vai que esse problema volta, essa rotina, essa pessoa, essa doença, esse trauma, esse “eu” que já nem existia mais?

É óbvio que não estou falando de mico: mico é coisa para se relembrar (em família, apenas, aos finais de semana). Tô falando de coisa séria, coisa que não dá para retocar. Se a gente lembra desses momentos nada saudosos, sua frio, chora, tem arritmia, perde o sono. Dá aquele aperto no peito, aquele desespero (inútil) por um “fazer diferente”, um “voltar atrás”, ou ainda um “fingir que nada ocorreu”. Ser racional – frio, até mesmo - às vezes cai bem. Por que sofremos tanto, se o passado é a única parte temporal da vida que é imutável? Por quê?  (por sinal, você sabia que, quando vem no final de uma frase, o por quê deverá vir acentuado, continuando de boa, com seu habitual significado de “por qual motivo”, “por qual razão”? Se não sabia, veja só, você chegará ao próximo parágrafo ainda mais inteligente. Mas não mais inteligente do que um asiático, que não perdeu seu precioso tempo lendo isso e já está estudando outro assunto extremamente relevante)

Certamente, todos temos recordações que desafiam nossa resiliência (a capacidade de seguir adiante, superar adversidades, ou simplesmente lidar com os problemas sem surtar). Tem coisa que não há filtro que remedeie (melhor de todas as conjugações do verbo “remediar”. Obrigado, corretor automático. Me perdoe por todos os xingamentos passados. Seja resiliente. Bj). Porém, seguir adiante, ignorado o que passou, é algo muito necessário e saudável não apenas à vida cotidiana. Estou falando da caminhada espiritual.

Tem gente que não consegue ir em frente. Vive mais no passado do que no presente. Passa dias e noites lamentando não poder editar suas memórias, aplicar filtros e distorções diversos, só para – ao menos – disfarçar a dor. Até tenta esquecer, mas vez ou outra se pega pensando, relembrando. Às vezes, até curte a fossa que esse estado nostálgico proporciona. Uma melancolia contínua, tendendo ao habitual. Um estranho vício (oculto, claro) nas dores pessoais, em inimizades, amores mal resolvidos e pecados acariciados. Isso é altamente perigoso. Pode fazer do passado, (um) presente (espero que algum leitor capte a ironia nessa frase. Me senti intelectual e soturno escrevendo isso).

Sabe quem lucra com a sua tristeza, com o seu medo de encarar o passado? Ele, o Tinhoso. Ele gosta de desestimular as pessoas de futuro brilhante, apontando a elas o passado. Ele quer afetar o mutável apresentando-nos o imutável. Para que você perca o controle do porvir, ele lhe apresenta um verdadeiro buffet (odeio essa palavra) de desventuras, memórias embaraçosas, traumas, todos eles cheios de detalhes. É uma artimanha, um golpe baixo, uma tremenda sacanagem. Ora, é coisa do Tinhoso. O que você esperava? Como qualquer vilão clichê de história em quadrinhos, ele quer dominar o mundo. E esse é apenas um dos seus jeitos. Esfregar na sua cara que você não presta, que as coisas vão dar errado, que seu passado é maior do que o seu futuro. Não se deixe iludir. Saiba usar as memórias a seu favor.

Todo acidente que nos acontece muda nossa aparência. Cria marcas na nossa lataria emocional. Essas marcas são negativas? Boa parte das vezes. Porém, elas nos tornam únicos. Somos o que somos em virtude do que vivemos, de bom e de ruim. E, quem sabe, há uma chance minúscula de haver outros como nós, perdidos mundo afora, em busca de empatia real. Gente em busca de pares, de pessoas com a mesma vivência, os mesmos traumas, medos e doenças. Gente com as mesmas lágrimas. Porque só quem sofreu igual sabe consolar de verdade.

Talvez esse seu sofrimento tão personalizado traga consigo todo um projeto evangelístico embutido (e igualmente personalizado). Digo mais, talvez seu sofrimento vire um ministério (não com esse nome deprimente, porém). É questão de perspectiva. Como fotografia. 

Ou então quem sabe esse seu passado ainda presente seja somente uma maneira interessante (fomos criados de forma assombrosa) de você evitar erros futuros. Um mecanismo simples para manter a gente em bons lençóis. Nesse caso, já que não dá pra mudar o que passou, a memória seria um lembrete, garantia perpétua de que o futuro pode ser (sempre) diferente.

Para o cristão, tudo é oportunidade. Do lamento, faz-se canção. E a vida prossegue intacta, com o humor que só quem já sabe o fim consegue manter. Se o passado voltar, se tentar assombrar, o cristão segue em frente, pronto para tudo. Porque ele sabe que, para um cristão, tudo é possibilidade de testemunho. Nossos erros e acertos, as aventuras e desventuras, a alegria e a tristeza, tudo é testemunho. Quer vivamos ou morramos, somos do Senhor.

E, não custa dizer, creia no poder curativo da oração. Terapia funcional, sem contraindicação e – viva o proletariado – de graça. Graça. Palavrinha bonita, essa.

Problemas? Oração neles! Quer esse seu problema seja tudo culpa sua ou não, saiba que em Cristo há oportunidade real de redenção. Se alguém está nEle, é uma nova criatura. Aquilo que passou, já era. Tudo fica novo. É Ele o filtro mais convincente. Remove a imperfeição, destaca a imagem. E torna lindas as memórias.