terça-feira, 26 de agosto de 2014

Teololove:Como contar para a (sua) namorada que você fará teologia


Antes de mais nada, o texto a seguir é grande. Quem avisa, amigo é. Se você optar por ir em frente, será por sua conta e risco (e tempo).


Foi assim que aconteceu. Eu estava apavorado, por dois motivos complementares. Motivo número um: eu havia, enfim, entendido que poderia, sim, estar sendo chamado por Deus à teologia. Motivo número um, parte dois: eu não conseguia digerir porque catacumbas Deus queria isso de mim (ok, ainda hoje não sei. Mas deixa pra lá). Motivo número dois: eu não sabia como contar à minha amada do meu chamado. É que ela tinha me dito que jamais seria esposa de pastor (eu até escreveria “jamais” em caps, para reproduzir fielmente o tom do aviso original, mas soaria deselegante). O fato é que ela é muito esperta – uma esperteza clínica, forense e cheia de pose – e já vinha me dizendo, o ano inteiro, que não admitiria jamais que eu fizesse teologia. Ela dizia que ser filha de pastor já era mais do que suficiente.




Assim que me senti chamado, tratei de testar Deus até a exaustão (minha, no caso). Se você não passou por isso, talvez não consiga entender o quanto esse processo pode ser doloroso, estranho e até mesmo humilhante. Você fica paranoico (“será que sou um idiota?”), tentando captar indícios da vontade divina, sinais ou mensagens ocultas na natureza (ah, os desígnios de Deus...) e, a cada pessoa que você conta dessa missão, mais você se sente um imbecil. O fato é que eu, e mais todo mundo que me ouvia falar em chamado, achava a ideia um tanto engraçada. Por vezes, ouvi risos; em alguns poucos casos, tapinhas nas costas. Encorajador.

Mas como contar à amada, aquela que será a mãe dos seus filhos e com quem dividirá a cama (espera-se), que você decidiu cursar Teologia? O fato é que eu nem tinha tomado uma decisão, ainda. Não sabia o que fazer, talvez justamente por causa dela. E, convenhamos, essa é uma decisão que, uma vez que você tem um compromisso amoroso sério, precisa ser tomada a dois.   

Decidi confidenciar meu drama com o pai dela. Como já falei, ele é pastor. E, modéstia à parte, um baita de um pastor. Por um acaso (ou não...), ele participaria de um evento da Rádio Novo Tempo, da qual é diretor, na cidade onde eu estava colportando. Não perdi tempo. Prestigiei o memorável evento (poxa, era o aniversário da rádio), chamei meu sogro num canto e dei vazão à minha via crucis pessoal. Ele foi mais querido do que já é de costume e me deu vários conselhos, que não convém falar aqui. Um deles, altamente pertinente: “não conte à ela, pelo menos até estar certo e corajoso para isso” (mais uma vez, um caps ia muito bem). Como de costume em situações tensas, meu sogro ficou muito corado e risonho. Disse que oraria por mim, para que Deus me mostrasse o que queria de mim. E eu me acalmei. Mentira. Eu continuei pisando em ovos. Literalmente. Mentira. Não foi literalmente, óbvio. Literalmente. Afinal, o que quer dizer literalmente, literalmente? Ok, eu gosto de confundir leitores. Ignore essa parte.

A essa altura, você já deve estar irritado pela minha lengalenga e clamando pelo final do texto. Como esse artigo é meu, vou gastar um parágrafo apenas com essa informação altamente relevante. Só porque deu vontade. Se você gosta de textos curtos, eu indico Garfield. Se quiser saber o final dessa interessantíssima saga semi-teológica, avance um parágrafo. 

Orei horrores. Por mim, por ela, pelo futuro da Teologia. Pedi sinais. E, após ter confirmações exageradas, tal qual os meus pedidos (mais informações, vide aqui), decidi parar de correr. Aceitei o chamado. Mas e a bendita da menina? Havia chegado a hora de enfrentar a leoa (“leoa”: propositalmente sensual. Ando estudando o livro de Cantares).

Foi depois de um brunch. Eu a levei para o Centro de Vivência, “CV”, para os íntimos. Na época, ainda tínhamos um desses no Unasp-EC. Bons tempos (como presidente do grêmio, darei jeito nisso). Olhei bem nos olhos dela e falei que tinha algo difícil e importante para falar, mas estava todo assustado (eu não usei essa palavra. O termo real utilizado nessa hora foi mais chulo, de alto impacto). Sentamos um de frente para o outro. Ela me disse para desembuchar. Abri o coração. Comecei fazendo aquela moral... Reconheci que não era a minha vontade que tudo aquilo estivesse acontecendo, e acontecendo comigo, ainda. Jamais tinha sonhado com Teologia, nem com pastorado, nem com nada. E eu tinha tanto pavor daquela ideia quanto ela. Tinha medo de magoá-la, assustá-la e inclusive afastá-la de mim. Eu não queria que ela abandonasse a carreira, os sonhos e vontades só para viver à minha sombra, sendo uma eterna coadjuvante. Uma ajudadora idônea. Amorosa, presente, fiel e infeliz. Era exigir muita abnegação de quem eu estava tão feliz em ver feliz. Enfim, eu estava arrasado com algo que deveria ser maravilhoso, motivo de festa. Mas disse à minha namorada que estava aberto a ouvir o que ela tivesse a dizer, seja lá o que fosse. E ela me contou uma historieta bem inusitada.

Ela abriu a boca e me fez sorrir. Disse que já sabia de tudo aquilo fazia tempo. Seis meses. Disse que Deus havia falado a ela, no coração, sobre o meu destino. Caso você ainda não tenha entendido, ela havia sentido um chamado para ser esposa de pastor. Legal, né? E aí veio a melhor parte: ela estava feliz por saber que Deus queria isso para nós dois. E falou ainda que estava disposta a levar esse fardo (brincadeira) comigo. Nossas carreiras teriam alguns arranjos e tal, mas estaríamos juntos. E juntos com Deus.

Quase caí para trás. Fiquei emocionado. E concluí: essa é para casar (de lá para cá, passaram-se dois anos e nada, ainda. Aguardamos essa festiva ocasião com quase a mesma expectativa com que esperamos pela vinda do Nazareno).

É óbvio que, na época, ela ficou enraivecida ao saber que todo mundo já sabia do meu chamado menos ela (ué, Deus já não tinha revelado?). E é óbvio que fiz piada com o fato de que ela recebeu o chamado antes de mim, um semestre antes (“é que seu coração é muito duro”). Mas o que importa é que estamos aqui, juntos há quatro anos (!), nos amando (e esperando o casamento, nos mais variados sentidos). Não fazemos ideia do que vem pela frente. Mas, quando olhamos para trás, vemos que Deus já nos planejou muita coisa. É claro que ele não vai nos deixar na mão.

Sou muito grato a Deus por mais essa confirmação do Seu chamado para mim. Eu não mereço. Nem Ele. Fazer o quê, né? Deus escreve certo por linhas (absoluta e inacreditavelmente) tortas.
E sou grato a Deus porque Ele me deu a ela. Muita areia para esse caminhãozinho mal-acabado, aqui. E uma ajudadora idônea, sobretudo.