domingo, 11 de maio de 2014

Não fui quem era, não serei quem sou




Por André Urel




- Quem é aquele menino? Ele é o filho do novo pastor!
- Oi, quem é você? Sou o... Ah, o filho do pastor!
- Menino, como você cresceu! Quando seu pai era pastor na minha cidade...

Desde que me entendo por gente fui roubado, roubado de minha própria identidade. Certamente, quando crianças, todos são identificados por quem são seus pais, mas depois constroem sua própria pessoalidade. No meu caso, essa associação filial parecia uma maldição perpétua, a cada vez que eu estava sendo reconhecido por quem eu realmente era, um novo ciclo começava: nova cidade, nova igreja, novas pessoas e eu era novamente apenas o "filho do pastor".

Ser "filho do pastor" não é meramente uma característica que te faz ser identificado com maior facilidade, é carregar um pesado estigma de quem: não corre na igreja, não conversa na hora do culto, sempre estuda a lição, não questiona as regras e tem conduta exemplar. O filho do pastor é sempre o último a ser buscado na escola porque todo mundo tem um assunto a tratar quando vê seu pai, o filho do pastor sempre acorda com os telefonemas da madrugada e muitas vezes dorme sem o abraço do pai. O filho do pastor responde também por "pastorzinho" e ele se acostuma com isso, ele é criado desse jeito, comigo sempre foi assim.



André e seu pai 
Muitos "irmãos" cruelmente me feriram dizendo que eu vivia dos dízimos deles, cobrando de mim um comportamento adulto e roubando assim coisas simples da infância. Por meu pai estar em evidência, sempre me senti meio "popular", todo mundo sabia quem eu era, mas ninguém realmente sabia, quem eu era. Sempre tive dezenas de colegas, mas por anos, vivi sem um amigo.

Cresci ouvindo assuntos que eu não poderia ouvir, seja esperando meu pai depois do culto ou brincando na janela ao lado do escritório. Sempre soube dos problemas da igreja, dos conflitos entre os irmãos, das falhas eclesiásticas, da politicagem, da hipocrisia, da corrupção.

Amava chegar em casa! Em casa eu podia correr, gritar e até brigar com o meu irmão "em paz". Em casa eu não era filho do pastor, era apenas filho, e como eu amava isso. Em casa a responsabilidade dos cultos diários era dos meus pais, na maioria das vezes, da minha mãe. Em casa eu podia questionar, discordar e debater sem olhares tortos e repressão. Toda sexta-feira era dia de preparar o culto, meu pai já fazia o culto da Igreja (no Sábado), logo, cabia a mim e ao meu irmão a responsabilidade de preparar e executar o culto de pôr-do-sol. Hoje, acho um pouco estranho isso, mas foi sempre assim: nós cantávamos, fazíamos encenações, pregávamos, orávamos e meus pais batiam palmas e nos abraçavam no final.


Uma tênue linha divisava minha percepção da realidade espiritual. Desde cedo entendi a incisiva e determinante função do meu pai sobre quem eu era, e mais que isso, compreendi mesmo de maneira difusa e muitas vezes confusa que eu deveria ser algo além de mim.

Nunca me esquecerei do carinho de algumas "ovelhas" do meu pai. Da Márcia que me dava bisnaguinhas, em Monte Azul, enquanto eu esperava depois do culto. Do Carlão, em Ribeirão, que não exigia mais de mim do que de meus colegas e nos cobrava reverência com disciplina militar e divertidos regalos. Da Arlene, em Rio Preto, que sempre me abraçava com carinho e palavras de ternura até meu coração transbordar. 

Nunca me esquecerei do incomparável privilégio de ter sido batizado pelo meu pai e do significado daquilo pra mim. Nunca me esquecerei do melhor sermão que ele já pregou, não em um púlpito, mas só pra mim, em lágrimas, enquanto me levava pro IAP. Nunca me esquecerei dos livros recomendados, das discussões acirradas e das simples orações.

Mais do que o clássico dilema "fardo" ou "privilégio" sou simplesmente grato a Deus por essa condição. Grato porque em sua encantadora poesia, Ele me fez compreender na carne as injustas cicatrizes, os necessários sacrifícios e a santa abnegação do Filho na metáfora do Pai-Pastor. O direito que antes me parecia roubado, hoje voluntariamente entrego para ser reconhecido nEle como sendo, antes de mim, filho do verdadeiro Pastor.



Pr Urel, pelos seus frutos reconheço um bom pastor