domingo, 4 de maio de 2014

Somos normais

Por Camila Linhares de Queiroz Freire


Camila é filha do Pastor Geovani Queiroz, presidente da União Leste Brasileira.
Ela sempre foi uma força tremenda na IASD Brooklin onde a conheci.


                Dizem que a vida é feita de escolhas. Só não te contaram que nem sempre é VOCÊ quem decide por algo. Por exemplo, ninguém escolhe os pais que terá ou onde irá nascer. Posso me considerar privilegiada pelos pais que tenho. Porém, privilégios vêm acompanhados de responsabilidades.

                No caso de uma família pastoral fica evidente o exemplo e a cobrança sobre uma vida espiritual real. Porque, como bons seres humanos que somos, gostamos de ver pessoas praticando o que dizem. Por outro lado, também interessa quando o contrário acontece. Sendo assim, é comum vermos irmãos que esperam uma espécie de perfeição da família pastoral.



                A vida segue. E ao longo dela aprendemos que as injustiças acontecem. Com um filho de pastor é assim: todos olham para você, todos cobram atitudes de você, todos querem ver você errar em algum ponto. Quer saber de uma coisa, meu caro filho de pastor? Você não é o centro do universo. Pode parecer um exagero, mas às vezes a sensação é essa. Seja um ser humano normal. E como um ser humano normal você verá que não importa qual é sua origem. Um dia quem vai ditar as regras e tomar decisões será você; Verá que precisa acreditar em algo e que buscando você O achará; Precisará crescer e tomar decisões como carreira, casamento, ética, valores, relacionamentos... Saberá quão infantil é jogar a culpa da curiosidade, fracassos e indecisões sobre a profissão dos seus pais; E se for consciente, verá que existem pessoas que realmente sofreram, lutaram, buscaram e que nem sempre têm um final feliz. E que você teve tudo que precisava para ter uma vida de vitórias.




                Por outro lado, estimados (futuros) pastores, estejam conscientes que vocês tomaram a decisão do ministério por motivos sinceros e nobres, porém os filhos de vocês nascerão dentro desse ministério sem saber coisa alguma sobre Deus, mundo e vida. Cabe a vocês a responsabilidade de mostrar uma obra que luta para levar a mensagem a todo o mundo, uma igreja profética, um mundo finito e um Deus de amor. Se sua missão for bem sucedida eles amarão essa igreja e esse Deus da mesma forma que vocês e não medirão esforços para levar a obra adiante mesmo que não escolham a mesma profissão dos pais. Se a semente for plantada em solo fértil, solo que vocês manipularão, a árvore dará bons frutos em qualquer lugar e fase da vida. Mas lembrem-se que todos nós somos pecadores e erros certamente acontecerão. Quando isso acontecer não se esqueçam da empatia e do ensinamento e não apenas da repreensão.



            De maneira prática, sugiro muita conversa e transparência dentro de casa. Existem coisas que não podem e nem precisam ser tratadas fora de casa ou em frente a outros (mesmo familiares ou irmãos da igreja). Contem pra sua família sobre o seu salário e como você e seu cônjuge controlam as despesas da família. Isso vai facilitar muito quando começarem a pedir brinquedos, roupas de marca e eletrônicos que “todo o mundo tem”, mas que na realidade podemos viver sem. O salário de um pastor não é para obter riqueza, mas para que a família tenha tudo o que é necessário para viver decentemente. Conte como a Igreja administra os dízimos e as ofertas. Seu filho vai começar a entender o valor do dinheiro e a santidade do dízimo. Faça com que ele não se sinta uma estatueta do Oscar do bom comportamento ou um pequeno cristão de fachada. Mostre em casa o que é falado no púlpito e com amor e sinceridade que às vezes você erra, mas que pede perdão e procura fazer o que é correto. Você quer ver a igreja fazer cultos familiares e pequenos grupos? Faça na sua casa. Dê responsabilidades espirituais e da vida prática  para ele. Ele precisa aprender a buscar a Deus sozinho porque não é o ministério do pai que irá salvá-lo. Com a busca espiritual individual ele vai ter a coisa mais importante da vida. Ensine sobre o mundo. Que as coisas não caem no colo e que é preciso lutar pelas coisas. Infelizmente vejo que muitos filhos de pastor não conseguem sair da “bolha” da igreja. Deixe-me explicar. O filho de pastor cresce numa família estruturada, com necessidades materiais supridas, fazendo parte de um grupo de pessoas que procura fazer o que é certo, além de respeitar a família pastoral. Para completar, o seu pai não tem uma profissão comum, com busca frenética por promoções, participações nos lucros, espaço no mercado de trabalho, etc.. Quando precisa estudar numa faculdade que não é adventista, fazer amigos e colegas em ambientes “neutros” em que religião não é nem de longe a coisa mais importante na vida deles, construir uma carreira, enfim, conviver com as coisas do mundo, esse filho de pastor que não tem firmeza no que acredita ou confiança e diálogo aberto com os pais, infelizmente tem grandes chances de “desandar” ou voltar correndo pra “debaixo da saia” da família e da obra, simplesmente por falta de confiança de enfrentar o mundo e/ou ver sua fé sendo
provada.


                Aprendi muito com meus pais e tive em casa esses conselhos que mencionei acima. Isso me fez amar a obra, a igreja e Deus. Agradeço por ter pais (porque não é só o pai pastor, mas também e especialmente a mãe/esposa) que me ensinaram desde cedo sobre tudo. Acho que eu era uma das poucas filhas de pastor que já ganhava mesada, dizimava e ofertava antes de aprender a ler. Sabia mais de geografia que ninguém, na escola, pois acompanhei meu pai em muitas viagens e nas mudanças de cidade sempre aprendi os sotaques mais rápido que os outros da família. Esse estilo de vida nômade e sempre em sociedade me deu o privilégio de conhecer inúmeras cidades, igrejas e pessoas que me fizeram mais tolerante e adaptável a qualquer situação. Encarei uma vida longe de casa cedo, pois fui atrás daquelas decisões que citei no início (carreira, fé, casamento) e posso dizer que longe de casa é que pude saber quem eu era e o que eu estava fazendo naquela igreja. Hoje posso afirmar que creio no que creio e sou o que sou por minha própria decisão. E também posso dizer que eles me deram toda a base pra afirmar isso. Uma coisa que aprendi com nossa querida amiga Ellen White (virou minha “querida” depois que resolvi sair da ignorância adventista contemporânea e ler os livros do Espírito de Profecia) é que nossa maior missão nessa terra é ajudar na salvação dos que estão dentro da nossa casa. Não esqueçam dos seus e eles não esquecerão de Deus.