segunda-feira, 26 de maio de 2014

A brilhante vereda do justo

Artigo escrito pelo pr. Ivan Fidelis


O propósito deste artigo deve ser o de trazer a reflexão acerca das diferenças teológicas bíblicas quanto à compreensão hermenêutica e exegética da Palavra de Deus em sua aplicação prática e, por isso, não deve ser interpretado como apologia ou apologética a nenhuma das denominações citadas. 

Fui Pastor na Igreja Batista por vários anos e  agora desenvolvo o Ministério para o qual fui chamado na Igreja Adventista do Sétimo Dia, por isso, não escrevo como alguém que tem apenas conhecimento literário ou acadêmico mas, de fato, como quem conhece na prática diária as implicações diretas e indiretas das aplicações bíblicas fundamentadas por sua própria coerência sistemática da revelação de Deus ao longo dos séculos em face a influência humana corrompida pela separação do SENHOR.


            Ao longo de minha jornada cristã, que iniciei na Igreja Assembleia de Deus – Ministério do Belém, procurei responder à direção do Espírito Santo quanto a dois textos bíblicos que me chamaram a atenção desde criança: 1) 1Coríntios 12.31b – “(...) eu passo a mostrar-vos um caminho sobremodo excelente” – e, também, 2) Oséias 6.3ª – “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR (...)”. – Este dois textos são claros quanto à jornada que teria de percorrer e, diante disso, cheguei num determinado momento à Igreja Batista.

 Por este motivo, respondendo o chamado pastoral do SENHOR, fui dirigido a Faculdade Teológica Batista de Campinas onde realizei duas formações acadêmicas: Bacharel em Teologia e Pós-graduação em Aconselhamento Bíblico com ênfase em Família e Sexualidade. 

Hoje, devido a diferença denominacional, estou concluindo algumas matérias distintivas exigidas pela União Adventista na Universidade Adventista de São Paulo – UNASP – e, assim, tenho a oportunidade de observar semelhanças e diferenças entre a Teologia da Igreja Batista e a Adventista


Semelhanças


De fato, existem grandes semelhanças entre as duas denominações tais como: O SENHOR é um Deus triuno nas pessoas do Pai, Jesus Cristo (Filho) e o Espírito Santo; Jesus é o único Senhor e Salvador que reconcilia a humanidade ao seu Criador através do sacrifício na cruz do calvário mediante arrependimento do pecador; Salvação exclusiva na Graça dispensada por Jesus Cristo; o ser humano foi criado a imagem e semelhança de Deus, porém foi separado do Criador pelo pecado tornando-se corrupto, corrompido e tendo a morte como consequência final, sendo restituído para a vida eterna através da ressurreição em Cristo Jesus. 

Existem, também, semelhanças litúrgicas que não são parte integrante da teologia, apenas espelham expressões de raízes eclesiásticas em comum.


Diferenças


            Quanto às diferenças, apesar de serem menores, elas começam no ponto em que deveria ser o mais comum entre as denominações: 

A Bíblia como única regra de fé e prática. Batistas e Adventistas tem a mesma profissão de fé em relação à Palavra de Deus: “A Bíblia é nossa única regra de fé e prática”. Porém, a Igreja Batista desconsidera o Antigo Testamento com uma visão preterista, ou seja, não válido para os dias atuais senão para conhecimento histórico ou com ênfase nas promessas do SENHOR. Enquanto isto, a Igreja Adventista considera a Bíblia com validade integral para a contemporaneidade, Antigo e Novo Testamentos, excluindo apenas as chamadas Leis Cerimoniais que apontavam para o sacrifício de Cristo na cruz do calvário. Ao contrário do pensamento teológico batista acerca da teologia adventista, os escritos da cofundadora da Igreja, Ellen G. White, não são considerados pela instituição eclesiástica como um segundo Canon para a Igreja, apesar do exagero interpretativo de alguns membros que não representam a Igreja como um todo. 

Por outro lado, o tradicionalismo denominacional da Batista impede a interpretação racional da Bíblia, o que dificulta muito a percepção mais ampla da revelação divina. Assim, todo o conjunto interpretativo da revelação progressiva bíblica fica prejudicado pela influência de conceitos intelectuais humanos e, de fato, a teologia denominacional passa a ser o segundo Canon bíblico. Decorrente desta visão interpretativa da teologia Batista surgem outras diferenças com relação aos Adventistas do Sétimo Dia destacadas no quadro abaixo:

Tema
Igreja Batista
Igreja Adventista
Criação Humana
O ser humano foi criado por Deus em sua imagem e semelhança constituído de corpo, alma e espírito.
O ser humano foi criado por Deus em sua imagem e semelhança sendo que a expressão “alma” refere-se a constituição total do ser.
Imortalidade da alma
A alma é um terceiro elemento imortal e viverá por toda a eternidade independente da salvação.
Alma, sendo a expressão do ser humano, é mortal e somente os salvos terão vida eterna.
Vida após morte
Imediatistas – Ao morrer o homem, sua alma imediatamente vai para o Reino Celestial, quando salvo, ou para o Inferno quando ímpio.
Ao morrer o homem, sendo ele um ser unificado, ele volta ao pó da terra onde aguardará a volta de Jesus Cristo para a ressurreição dos salvos e depois de mil anos voltará para ressurreição, julgamento e destruição dos ímpios.
Eternidade
Os salvos viverão e reinarão com Jesus Cristo por toda e eternidade. Os ímpios sofrerão o castigo eterno no inferno e serão atormentados por Satanás e os demônios por toda a eternidade.
Os salvos viverão e reinarão com Jesus Cristo por mil anos, quando a terra será restaurada segundo a criação original. Os ímpios serão destruídos juntamente com Satanás e os demônios após o milênio.
Escatologia
Jesus Cristo fará o arrebatamento secreto dos salvos e, neste momento será instaurado o reino de Satanás na terra. Dois profetas ficarão na terra para pregar o Evangelho oferecendo mais uma oportunidade de salvação para quem não receber a marca da Besta. Quando Jesus retornar resgatará, mais uma vez os salvos, julgará os ímpios e os condenará ao tormento eterno.
Jesus voltará e todos verão. Resgatará os salvos deixando todos os ímpios na morte por mil anos. Em consequência, Satanás e os demônios ficarão isolados na terra sendo sua prisão por mil anos. Após este tempo, Jesus retorna para ressurreição, julgamento e destruição eterna dos ímpios, Satanás e seus demônios. A terra será restaurada e todos os salvos viverão eternamente nela.
Sábado
Conceito de descanso segundo a palavra hebraica “shabat” que pode ser aplicado a qualquer dia da semana. O conceito é visto como um princípio de fé e tornar o princípio num dia específico passa a ser idolatria.
Dia específico determinado por Deus com o propósito de comunhão plena entre criatura e Criador. Em obediência ao quarto mandamento o Sábado é um dia específico tendo em vista a criação do universo em seis dias literais.
Santuário
Heresia teológica criada pela profetiza Ellen G. White que torna inválido o sacrifício vicário de Jesus Cristo na cruz, o qual completa o sacrifício através do juízo investigativo no Santuário Celestial até a Sua volta.
Doutrina Bíblica tendo sua teologia compartilhada pelo judaísmo e exposta de Gênesis a Apocalipse que confirma a dispensação da Graça mediante confissão e arrependimento do pecador.



Tenho absoluta certeza de que para a Palavra de Deus só há uma exegese e hermenêutica correta, apesar da possibilidade de várias aplicações nos diversos textos; e tenho convicção de que a Igreja Adventista do Sétimo Dia, com a Graça e Misericórdia de Deus, tem ouvido mais o Espírito Santo que os egos interpretativos humanos. Não é uma denominação perfeita, ausente de problemas e conflitos, muito menos não tem a arrogância do discurso de que todos os seus membros sejam salvos ou que todos os salvos do mundo fazem parte da Igreja. 

Sabemos que a Igreja de Jesus Cristo é muito maior que a Igreja Adventista do Sétimo Dia, mas cremos na palavra de Jesus Cristo registrada pelo apóstolo João segundo sua descrição do Evangelho de Jesus Cristo: “Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor (...)  Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste”. – João 10.16 e 17.20-21


            Diferenças apenas nos distanciam uns dos outros e de Deus, e fazem com que o Evangelho de Jesus Cristo caia em descrédito perante o mundo. A Igreja de Jesus Cristo deve lembrar-se da advertência do Mestre no Evangelho segundo Mateus 12.25: “Jesus, porém, conhecendo-lhes os pensamentos, disse: Todo reino dividido contra si mesmo ficará deserto, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá”. – Que em breve possamos ser unânimes em Cristo Jesus.