segunda-feira, 3 de março de 2014

Uma pretensa tentativa não-cafona de falar sobre chamado, colportagem e madrugadas

Para Lyndon A. Medina



Por Lucas Schultz

Ok, muito provavelmente essa não seja a melhor forma de se começar um texto. A ideia original era que eu contasse o meu chamado, ou algo do tipo. Eu espero estar fazendo isso da maneira correta, mas esses últimos dois anos foram um looping bastante inesperado e nauseante (talvez o texto fique igual, enjoativo).

Pra ser justo com você desde o início, acho interessante já deixar claro: jamais gostei da ideia de ser pastor.
Na verdade, num passado não muito distante, em que eu era um pouco mais infantil do que hoje, meu sonho era ser pastor. Brincava de pregar, batizar e até mesmo exorcizar. Eu achava graça nisso (garanto que você já teve alguns prazeres ridículos e culposos também). Eu cresci, porém, dividindo essa paixão com outras tantas paralelas. Bombeiro, arquiteto, jornalista e escritor. Sonhei com tudo isso.


Conforme fui crescendo e pecando, descartei a ideia do ministério pastoral. No decorrer da minha adolescência, permiti que, junto aos pelos corporais e complexos de inferioridade, crescesse o meu preconceito com o pastorado. E, por mais tosco que soe, o que mais me enojava na profissão (fora os inúmeros espécimes mal vestidos que eu já havia conhecido no ramo) era justamente a ideia de acordar às três da matina com um chamado para exorcizar alguém. Não sei porque o exorcismo me cativava tanto. Podia jurar que minha infância foi normal. Enfim, eu desenhava essa situação “macabra” na cabeça e prontamente vomitava promessas de que jamais seria pastor. Mas a vida tem dessas. Te dá uma rasteira e já era: muda tudo.

Em 2012, no meio do ano, eu estava desesperado. Estavam para chegar as férias de julho e eu queria muito me divertir (quem não?). Mas eu não tinha para onde ir... Em casa, havia problemas demais. Demais mesmo: caso de polícia, literalmente. E, senão em casa, onde poderia eu dedicar-me à tão merecida vagabundagem? Comecei a ficar transtornado. Não havia parentes nem amigos que pudessem me dar segurança/hospitalidade/casa-comida-e-roupa-lavada de forma satisfatória e não constrangedora. Onde eu encontraria abrigo para um mês inteiro, sem me sentir (tampouco ser) um estorvo?

Surgiu um amigo chamado Lyndon. Eu já o conhecia bem, mas andávamos distantes. Porém, ele veio com uns papos muito loucos sobre colportagem (detalhe: ele liderava uma equipe). Até então, eu detestava colportagem. Ele disse que seria bacana, um lugar cheio de gente divertida e missionária. Mas eu detestava colportagem. Ele disse que era o sonho de Ellen White pra todo jovem. Eu detestava colportagem. Disse também que eu ainda ganharia uma graninha. Eu detestava colportagem. E que seriam férias boas pra eu me apegar mais a Deus. Eu detestava colportagem. Por sim, quando o Lyndon disse que eu não passaria fome, eu considerei a ideia. E fui.

Eu havia tido uma experiência bastante ridícula com a colportagem, não fazia muito tempo. Havia fugido dela, me escandalizado com algumas situações feias que tinha visto numa campanha pouco estruturada que eu tinha tido o desprazer de conhecer. Quando eu falo em fugir, é fugir mesmo (você pega suas trouxas e sai correndo, sem olhar pra trás, vestido de tal forma que não te reconheçam; mais tarde, você não atende telefones nem responde e-mails e escapa de qualquer conversa sobre o assunto do qual você fugiu; se tiver oportunidade, você muda de cidade e nome, ou pelo menos inventa um apelido que pegue – e não tenha nada a ver com sua verdadeira identidade). Recomecei minha vida isento das lembranças daquela malsucedida campanha. Generalista, como bom humano que sou, havia decidido que jamais faria de novo um programa de índio desses: toda campanha de colportagem, a meu ver, não prestava.

Lá estava eu, agora, pronto a me aventurar mais uma vez (“pronto” não é o mais coerente dos adjetivos). Pra piorar um pouco, voltei à colportagem em grande estilo. Na mesma cidade em que havia amargado o fracasso, anos antes: Novo Hamburgo, RS (rsrsrs). Quer mais? No mesmo bairro. Quer mais? As mesmas ruas. Quer mais ainda? Vai ficar querendo, pois as coincidências acabam aí. Nas férias julinas de 2012, tudo foi diferente. Amém?

Passei um mês maravilhoso, as férias mais legais que já tive. Me apeguei com Deus, com uns amigos inusitados (Ramage Maher e Servet Dema, eu amo vocês!) e com um conceito novo e muito incomum, até então, pra mim: “madrugadas de oração”. Todos os dias, durante a campanha, eu e o Lyndon orávamos às quatro da matina. Era tenso. A gente ficava cansado demais das caminhadas rotineiras e, quando orava, começava de joelhos, logo mais estava prostrado (Mecca style) e, em seguida, deitado. Mesmo. Muitas vezes dormíamos. Era um desastre. Mas a gente foi persistente. Depois de um tempo, desenvolvemos técnicas (orar em voz alta, um de cada vez; nunca orar deitado; se a dicção de A ficar arrastada, B dá uma cotovelada em A). Houve momentos em que me ajoelhei e, ao invés de orar, contei de um a quinze. Até hoje não sei o porquê.

O fato é que, de tanto orar, gostei de orar. E as madrugadas mudaram minha vida. Por dois motivos: consegui forças pra superar a densa situação que vivia com a família (posteriormente, houve a reconciliação) e recebi meu chamado. Pra Teologia. Nenhuma das duas bênçãos foi recebida/alcançada de forma fácil ou amistosa. Mas, como o propósito desse texto é contar apenas uma das duas histórias longas e monótonas, vamos ao que interessa.

Fiquei pasmo. Horrorizado. Senti bem forte (tipo uma voadora) no meu coração que deveria ser pastor. Eu achei que fosse um delírio, fruto da combinação da fadiga exagerada com uma “overdose” de espiritualidade (ambos, para mim, eram inerentes à colportagem). Depois de muito matutar, contei ao Lyndon. Ele falou muito calmamente, olhando bem nos meus olhos, como um médico que vai contar ao paciente que este pobre infeliz moribundo vai, mesmo, morrer: “é, piá, não quero te assustar, mas acho que pode ser Deus te chamando, hein”. Ele falou tão seguro, clínico, que eu quase caí pra trás.

Orei, jejuei, pesquisei, conversei com pessoas espiritualmente credenciadas, conversei com pessoas genuinamente céticas, conversei com cachorros, aves e ventríloquos, e tudo apontou à teologia. A princípio, eu queria confirmar que estava louco, que era alguma disfunção temporária, coisa do demo, sei lá, mas não rolou. Parecia, realmente, que era Deus me chamando.

Voltando ao Unasp, com algumas histórias, dinheiro e um dilema, resolvi partir pro sobrenatural (a situação pedia um drama). Orei intensamente testando a vontade de Deus e bati o pé: queria sinais. Obtive incontáveis.

O fato é que não parava de surgir pessoas desconhecidas, que continuam desconhecidas até hoje, surgindo na minha vida só pra dizer que eu tinha que fazer teologia. Sonhei com o chamado. Tive pessoas que apareceram no momento oportuno para me acalmar e dizer que confiasse e esperasse em Deus. E quando fui contar à minha mãe, ao meu pai, à minha namorada e ao meu melhor amigo, todos eles já sabiam. Deus havia contado a todos os meus pilares que eu faria teologia. Todos já sabiam antes de mim. A essa altura, comecei a desconfiar que realmente poderia, quem sabe, talvez, possivelmente, haver mesmo um chamado de Deus pra mim.

Mais oração, jejum e conversas com pessoas espiritualmente competentes (Amilton Menezes, Jader Santos, Martin Kuhn, Osvair Hunglaub e Lyndon – como me ajudaram!) para me aconselhar e orar comigo. No meu coração, eu agora aceitava a situação, mas estava tremendo feito vara verde. Pedi que Deus me consolasse. 

O mais marcante nesse momento de afetação foi quando falei com minha mãe sobre o chamado. Ela, então, cheia de carinho, me contou algo que eu não sabia até então, sobre quando me deu à luz (expressãozinha bonita, essa).

Até engravidar, ela fora diagnosticada como estéril. Muita insistência, muita oração, tempo. Num certo momento, depois de muita tentativa e fé, veio a gravidez. Na gestação, minha mãe se cuidou demasiadamente e correu tudo bem. Porém, no dia do meu nascimento, ela não teve dores de parto. Isso era estranho, incomum. Por isso, demorei muito a nascer (foi um parto forçado) e tive uma série de complicações. Minha mãe e os médicos se desesperaram e, diante da minha provável morte, ela implorou a Deus por minha vida. Naquele momento angustiante, me ofereceu a Deus, dizendo que eu já não era dela, e pediu que O Senhor me salvasse para ser um pastor. Naquele dia, diante de Deus, dos médicos e de um bebê roxo, ela prometeu que me daria uma educação especial, pois eu seria um pastor. Eu vivi, e não tive sequela nenhuma. Depois disso, minha mãe nunca mais engravidou. E nunca me contou nada dessa história, pois Deus é que ia me chamar, no tempo certo.

(É interessante como o choro precede as grandes decisões que tomamos na vida.)
Depois disso, descrente e relutante que sou, pedi uma última resposta a Deus. Pedi que me ajudasse a passar no vestibular e conseguir uma bolsa de estudos. Na época, o vestibular, que já era naturalmente concorrido, me trazia mais um agravante. Eu estava trabalhando na produção de um documentário chamado Opostos, que consumia diariamente cerca de treze horas de trabalho (duro). Quando me sobrava um tempo, era pra dormir/comer. Nessa situação, me sentia totalmente incapacitado pra estudar. Porém, Deus é surpreendente. Fiquei entre os 20 primeiros colocados no vestibular. E, depois, óbvio, consegui a bolsa. O que mais poderia eu fazer, depois disso? Teologia.

Cá estou eu, agora, escrevendo sobre tudo isso e agradecendo muito a Deus. Os milagres continuam, a todo instante, reafirmando o projeto de Deus que é a minha trajetória. Que alívio saber que aceitei esse destino.

Deus é bom. E tem paciência com um servo desconfiado, sem autoestima e pouco ambicioso como eu. Espero que Ele me use. E que eu seja um pastor decente. Como é bom saber que, a despeito de tudo e todos, Ele me separou para algo especial.


Mesmo quando não acreditei em Deus, Ele continuou a acreditar em mim.

Schultz é formado em jornalismo e, qual Jonas,
 não pôde fugir de seu chamado.